O CORUJA

Alusio Azevedo


PRIMEIRA PARTE


I


Quando, em uma das pequenas cidades de Minas, faleceu a viva do obscuro e j ento
esquecido procurador Miranda, o pequenito Andr, nico fruto deste extinto casal, tinha apenas
quatro anos de idade e ficaria totalmente ao desamparo, se o proco da freguesia, o Sr. padre
Joo Estvo, no o tomasse por sua conta e no carregasse logo com ele para casa.


Esta bonita ao do Sr. vigrio levantou entre as suas ovelhas um piedoso coro de louvores, e
todas elas metendo at as menos chegadas ao padre, estavam de acordo em profetizar ao bem-
aventurado rfo um invejvel futuro de douras e regalias, como se ele fora recolhido pelo
prprio Deus e tivesse por si a paternidade de toda a corte celeste.


A Joana das Palmeirinhas, essa ento, que era muito metedia em coisas de igreja, chegava a
enxergar no fato intenes secretas de alguma divindade protetora do lugar e, quando lhe
queriam falar nisso, benzia-se precatadamente e pedia por amor de Cristo que "no mexessem
muito no milagre"


 melhor deixar! segredava ela. -  melhor deixar que o santinho trabalhe a seu gosto, porque
ningum como ele sabe o que lhe compete fazer!


Mas o "pequeno do padre" como desda lhe chamaram, foi aos poucos descaindo das graas do
inconstante rebanho, pelo simples fato de ser a criana menos comunicativa e mais
embesourada de que havia notcia por aquelas alturas. O prprio Sr. vigrio no morria de
amores por ele, e at se amofinava de v-lo passar todo o santo dia a olhar para os ps, numa
taciturnidade quase irracional.


- Ora, que mono fora ele descobrir!... dizia de si para si, a contemplar o rapaz por cima dos
culos. - Aquela lesma no havia de vir a prestar nem para lhe limpar as galhetas!


O pequeno era de fato muito triste e muito calado. Em casa do reverendo no se lhe ouvia a voz
durante semanas inteiras; e tambm quase nunca chorava, e ningum se poderia gabar de t-lo
visto sorrir. Se o vestiam e o levavam a espairecer um bocado  porta da rua, deixava-se o
mono ficar no lugar em que o largavam; o rosto carrancudo, o queixo enterrado entre as
clavculas, e seria capaz de passar assim o resto da vida se no tomassem a resoluo de vir
busc-lo.
A criada, uma velha muito devota, mas tambm muito pouco amiga de crianas, s olhava para
ele pelo cantinho dos olhos e, sempre que olhava, fazia depois uma careta de nojo. "Apre! S
mesmo a bondade do Sr. vigrio podia suportar em casa semelhante lorpa!"


E cada vez detestava mais o pequeno; afinal era j um dio violento, uma antipatia especial, que
se manifestava a todo o instante por palavras e obras de igual dureza. E a graa  que jamais
nenhuma destas vinha s; era chegar a descompostura e a estava j o repelo, em duas, trs,
quatro sacudidelas, conforme fosse o tamanho da frase.


O Andr deixava-se sacudir  vontade da criada, sem o menor gesto de oposio ou de
contrariedade.


- Ah! S mesmo a pacincia do Sr. vigrio!


Apesar, porm, de tanta pacincia, o Sr. vigrio, se no mostrava arrependido daquela caridade,
era simplesmente porque esse rasgo generoso muito contribura para a boa reputao que ele
gozava, no s aos olhos da parquia inteira, como tambm aos dos seus superiores, a cujos
ouvidos chegara a notcia do fato. Mas, no ntimo, abominava o pupilo; mil vezes preferia no o
ter a seu lado; suportava-o, sabia Deus como! como quem suporta uma obrigao inevitvel e
aborrecida.


Ah! no havia dvida que o pequeno era com efeito muito embirantezinho. Sobre ser uma
criana feia, progressivamente moleirona e triste, mostrava grande dificuldade para aprender as
coisas mais simples. No era com duas razes, nem trs murros, que o tutor conseguia meter-
lhe qualquer palavra na cabea.


O pobre velho desesperava-se, ficava trmulo de raiva, defronte de semelhante estupidez. E,
como no tivesse jeito para ensinar, como lhe faltasse a feminil delicadeza com que se abrem,
sem machucar, as tenras ptalas dessas pequeninas almas em boto, recorria aos berros, e,
vermelho, com os olhos congestionados, a respirao convulsa, acabava sempre empurrando
de si os livros e o discpulo, que iam simultaneamente rolar a dois ou trs passos de distancia.


- Aquele maldito estpido no servia seno para o encher de blis! O melhor seria met-lo num
colgio, como interno... Era mais um sacrifcio - V! mas, com a breca! ao menos ficava livre
dele!


Oh! o bom homem j no podia agentar ao seu lado aquela amaldioada criana. s vezes, ao
v-la to casmurra, to feia, com o olhar to insocivel e to ferrado a um ponto, tinha mpetos
de torc-lo nas mos, como quem torce um pano molhado.


Nunca lhe descobria a mais ligeira revelao de um desejo.  mesa comia tudo que lhe punha
no prato, sem nunca deixar ou pedir mais. Se o mandavam recolher  cama, fosse a que hora
fosse, deitava-se incontinenti; se lhe dissessem "Dorme!" ele dormia ou parecia dormir. "Acorda!
Levanta-te !" ele se levantava logo, sem um protesto, como se estivesse  espera daquela
ordem.
Qualquer tentativa de conversa com ele era intil. Andr s respondia por monosslabos, no
mais das vezes incompreensveis. Nunca fazia a ningum interrogao de espcie alguma, e,
certo dia perguntando-lhe o padre se ele o estimava, o menino sacudiu com a cabea,
negativamente.


- E que tal?... considerou o vigrio; - olha que entranhas tem o maroto!...


E segurando-lhe a cabea para o fitar de frente:


- Com que, no gostas de mim, hein?


- No.


- No s agradecido ao bem que te tenho feito?


- Sou.


- Mas no me estimas?


- No.


- E, se fores para o colgio, no ters saudades minhas?


- No.


- De quem ento sentirs?


- No sei.


- De ningum?


- Sim.


- Pois ento  melhor mesmo que te vs embora, e melhor ser que nunca mais me apareas!
Calculo que bom ingrato no se est preparando a! Vai! Vai, demnio! e que Deus te proteja
contra os teus prprios instintos!
Entretanto,  noite, o padre ficou muito admirado, quando, ao entrar no quarto do rfo que
dormia, o viu agitar-se na cama e dizer, abraando-se aos travesseiros e chorando: "Mame!
minha querida mame!"


- So partes, Sr. vigrio, so partes deste sonso!... explicou a criada, trejeitando com arrelia.


II


Andr seguiu para o colgio num princpio de ms. Veio busc-lo  casa do tutor um homem
idoso, de cabelos curtos e barbas muito longas, o qual parecia estar sempre a comer alguma
coisa, porque, nem s mexia com os queixos, como lambia os beios de vez em quando.


Foram cham-lo  cama s cinco da manh. Ele acordou prontamente, e como j sabia de
vspera que tinha de partir, vestiu-se logo com um fato novo que, para esse dia, o padre lhe
mandara armar de uma batina velha. Deram-lhe a sua tigela de caf com leite e o seu po de
milho, o que ele ingeriu em silncio; e, depois de ouvir ainda alguns conselhos do tutor, beijou-
lhe a mo, recebeu no bon, uma palmada da criada e saiu de casa, sem voltar, sequer, o rosto
para trs.


O das barbas longas havia j tomado conta da pequena bagagem e esperava por ele, na rua,
dentro do trole. Andr subiu para a almofada e deixou-se levar.


Em caminho o companheiro, para enganar a monotonia da viagem, tentou cham-lo  fala:


- Ento o amiguinho vai contente para os estudos?


- Sim, disse Andr, sem se dar ao trabalho de olhar para o seu interlocutor. E este, supondo que
o bon do menino, pelo muito enterrado que lhe ficara nas orelhas com a palmada da criada,
fosse a causa dessa descortesia, apressou-se a suspender-lho e acrescentou:


-  a primeira vez que entra para o colgio ou esteve noutro?


- .


- Ah!  a primeira vez?


- Sim.


- E morou sempre com o reverendo?


- No.
- Ele  seu parente?


- No.


- Tutor, talvez...


- .


- Como se chamava seu pai?


- Joo.


- E sua me?


- Emlia.


- Ainda se lembra deles?


- Sim.


E, depois de mais alguns esforos inteis para conversao, o homem das barbas convenceu-
se de que tudo era baldado e, para fazer alguma coisa, ps-se a considerar a estranha figurinha
que levava a seu lado.


Andr representava ento nos seus dez anos o espcime mais perfeito de um menino
desengraado.


Era pequeno, grosso, muito cabeudo, braos e pernas curtas, mos vermelhas e polposas, tez
morena e spera, olhos sumidos de uma cor duvidosa e fusca, cabelo duro e to abundante,
que mais parecia um bon russo do que uma cabeleira.


Em todo ele nada havia que no fosse vulgar. A expresso predominante em sua fisionomia era
desconfiana, nas seus gestos retrados, na sua estranha maneira de esconder o rosto e jogar
com os ombros, quando andava, transparecia alguma coisa de um urso velho e mal
domesticado.


No obstante, quem lhe surpreendesse o olhar em certas ocasies descobriria a um inesperado
brilho de inefvel doura, onde a resignao e o sofrimento transluziam, como a luz do sol por
entre um nevoeiro espesso.
Chegou ao colgio banhado de suor dentro da sua terrvel roupa de lustrina preta. O empregado
de barbas longas levou-o  presena do diretor, que j esperava por ele, e disse apresentando-
o:


- C est o pequeno do padre.


- Ah! resmungou o outro, largando o trabalho que tinha em mo. - O pequeno do padre Estvo.
 mais um aluno que mal dar para o que h de comer! Quero saber se isto aqui  asilo de
meninos desvalidos!... Uma vez que o tomaram  sua conta, era pagarem-lhe a penso inteira e
deixarem-se de pedir abatimentos, porque ningum est disposto a suportar de graa os filhos
alheios!


- Pois o padre Estvo no paga a penso inteira? perguntou o barbado a mastigar em seco
furiosamente e a lamber os beios.


- Qual! Veio-me aqui com uma choradeira de nossa morte. E, "porque seria uma obra de
caridade, e, porque j tinha gasto mundos e fundos com o pequeno", enfim foi tal a lamria que
no tive outro remdio seno reduzir a penso pela metade!


Os das barbas fez ento vrias consideraes sobre o fato, elogiou o corao do Dr. Mosquito
(era assim que se chamava o diretor) e ia a sair, quando este lhe recomendou que se no
descuidasse da cobrana e empregasse esforos para receber dinheiro.


- Veja, veja, Salustiano, se arranja alguma coisa, que estou cheio de compromissos!


E o Dr. Mosquito, voltando ao seu trabalho, exclamou sem mexer com os olhos:


- Aproxime-se!


Andr encaminhou-se para ele, de cabea baixa.


- Como se chama?


- Andr.


- De qu?


- Miranda.


- S?
- De Melo.


- Andr Miranda de Melo... repetiu o diretor, indo a escrever o nome em um livro que acabava de
tirar da gaveta.


- E Costa, acrescentou o menino.


- Ento por que no disse logo de uma vez?


Andr no respondeu.


- Sua idade?


- Dez.


- Dez qu, menino?


- Anos.


- Hein?


- Dez anos.


- An!


E, enquanto escrevia:


- J sabe quais so as aulas que vai cursar?


- J.


- J, sim, senhor, tambm se diz!


- Diz-se.


- Como?
- Diz-se, sim, senhor.


- Ora bem! concluiu o Mosquito, afastando com a mo o palet para coar as costelas. E, depois
de uma careta que patenteava a m impresso deixada pelo seu novo aluno, resmungou com
um bocejo:


- Bem! Sente-se; espere que venham busc-lo.


- Onde? perguntou Andr, a olhar para os lados, sem descobrir assento.


- Ali, menino, oh!


E o diretor suspendeu com impacincia a pena do papel, para indicar uma das duas portas que
havia do lado oposto do escritrio. Em seguida mergulhou outra vez no seu trabalho, disposto a
no interromp-lo de novo:


Andr foi abrir uma das portas e disse lentamente:


-  um armrio.


- A outra, a outra, menino! gritou o Mosquito, sem se voltar.


Andr foi ento  outra porta, abriu-a e entrou no quarto prximo.


Era uma saleta comprida, com duas janelas de vidraa> que se achavam fechadas. Do lado
contrrio s janelas havia uma grande estante, onde se viam inmeros objetos adequados 
instruo primria dos rapazes.


O menino foi sentar-se em um canap que encontrou e disps-se a esperar.


Foi-se meia hora e ningum apareceu. Seriam j quatro da tarde e, como Andr ainda estava s
com a sua refeio da manh, principiou a sentir-se muito mal do estmago.


Esgotada outra meia hora, ergueu-se e foi, para se distrair, contemplar os objetos da estante.
Levou a olh-los longo tempo, sem compreender o que tinha defronte da vista. Depois,
espreguiou-se e voltou ao canap.


Mais outra meia hora decorreu, sem que o viessem buscar.
Duas vezes chegou  porta por onde entrara na saleta e, como via sempre o escritrio deserto,
tornava ao seu banco da pacincia. E, no entanto, o apetite crescia-lhe por dentro de um modo
insuportvel e o pobre Andr principiava a temer que o deixassem ficar ali eternamente.


Pouco depois de entrar para a saleta, um forte rumor de vozes e passos repetidos lhe fez
compreender que alguma aula havia terminado; da a coisa de cinqenta minutos, o toque de
uma sineta lhe trouxe  idia o jantar, e ele verificou que se no enganara no seu raciocnio com
o barulho de louas e talheres que faziam logo em seguida. Depois, compreendeu que era
chegada a hora do tal recreio porque ouvia uma formidvel vozeria de crianas que desciam
para a chcara.


E nada de virem ao seu encontro.


- Que maada! pensava ele, a segurar o estmago com ambas as mos.


Afinal, a escurido comeou a invadir a saleta. Havia cessado j o barulho dos meninos e agora
ouviam-se apenas de vez em quando alguns passos destacados nos prximos aposentos.


Em tais ocasies, o pequeno do padre corria  porta do escritrio e espreitava.


Ningum.


J era noite completa, quando um entorpecimento irresistvel se apoderou dele. O pobrezito
vergou-se sobre as costas do canap, estendeu as suas pernitas curtas e adormeceu.


Dormindo conseguiu o que no fizera acordado: seu roncos foram ouvidos pelo inspetor do
colgio, e, da a pouco Andr, sem dar ainda acordo de si, era conduzido  mesa do refeitrio,
onde ia servir-se o ch.


Seu tipo, j de natural estranho, agora parecia fantstico sob a impresso do estremunhamento;
e os estudantes, que o observavam em silncio, abriram todos a rir, quando viram o inesperado
colega atirar-se ao prato de po com uma voracidade canina.


Mas Andr pouco se incomodou com isso e continuou a comer sofregamente, no meio das
gargalhadas dos rapazes e dos gritos do inspetor que, sem ele prprio conter o riso, procurava
cham-los a ordem.


Por estes fatos apenas fez-se notar a sua entrada no colgio, visto que ele, depois da ceia,
recolheu-se ao dormitrio e acordou no dia seguinte, ao primeiro toque da sineta, sem ter
trocado meia palavra com um s de seus companheiros.


No procuravam as suas relaes, nem ele as de ningum, e, apesar das vaias e das repetidas
pilhrias dos colegas, teria passado tranqilamente os primeiros dias da sua nova existncia, se
um incidente desagradvel no o viesse perturbar.
Havia no colgio um rapaz, que exercia sobre outros certa superioridade, nem s porque era
dos mais velhos, como pelo seu gnio brigador e arrogante. Chamava-se Fonseca e os
companheiros o temiam a ponto de nem se animarem a fazer contra ele qualquer queixa ao
diretor.


Andr atravessava numa ocasio o ptio do recreio, quando ouviu gritar atrs de si ' Coruja!"


No fez caso. Estava j habituado a ser escarnecido, e tinha por costume deixar que a zombaria
o perseguisse  vontade, at que ela cansasse e por si mesma se retrasse.


Mas o Fonseca, vendo que no conseguira nada com a palavra, correu na pista de Andr e
ferrou-lhe um pontap por detrs.


O pequeno voltou-se e arremeteu com tal fria contra o agressor, que o lanou por terra. O
Fonseca pretendeu reagir, mas o outro o segurou entre as pernas e os braos, tirando-lhe toda a
ao do corpo.


Veio logo o inspetor, separou-os e, tendo ouvido as razes do Fonseca e dos outros meninos
que presenciaram o fato, conduziu Andr para um quarto escuro, no qual teve o pequeno esse
dia de passar todos os intervalos das aulas.


Sofreu a castigo e as acusaes dos companheiros, sem o menor protesto e, quando se viu em
liberdade, no mostrou por pessoa alguma o mais ligeiro ressentimento.


Depois deste fato, os colegas deram todavia em olh-lo com certo respeito, e s pelas costas o
ridicularizavam. s vezes, do fundo de um corredor ou do meio de grupo, ouvia gritar em voz
disfarada:


- Olha o filhote do padre Olha o Coruja!


Ele, porm, fingia no dar por isso e afastava-se em silencio.


Quanto ao mais, raramente comparecia ao recreio e apresentava-se nas aulas sempre com a
lio na ponta da lngua.


No fim de pouco tempo, os prprios mestres participavam do vago respeito que ele impunha a
todos; posto que estivessem bem longe de simpatizar com desgracioso pequeno, apreciavam-
lhe a precoce austeridade de costumes e o seu admirvel esforo pelo trabalho. Uma das
particularidades de sua conduta, que mais impressionava aos professores, era a de que, apesar
constante mal que lhe desejavam fazer os colegas, jamais se queixava de nenhum, e tratava-os
a todos mesma forma que tratava ao diretor e aos lentes isto com a mesma sobriedade de
palavras e a mesma frieza de gestos.
Em geral, era por ocasio da mesa que as indiretas dos seus condiscpulos mais se
assanhavam contra O Coruja, como j todos lhe chamavam, no tinha graa nem distino no
comer; comia muito e sofregamente com o rosto to chegado ao prato que parecia que apanhar
os bocados com os dentes.


Coitado! Alm do rico apetite de que dispunha, no recebia,  semelhana dos outros meninos,
presentes de doce, requeijo e frutas que lhes mandavam competentes famlias; no andava a
paparicar durante dia como os outros; de sorte que,  hora oficial da comida, devorava tudo que
lhe punham no prato, sem torcer o nariz a coisa alguma.


Um dia, porque ele, depois de comer ao jantar todo o seu po, pediu que lhe dessem outro, a
mesa inteira rebentou em gargalhadas; mas o Coruja no se alterou e fez questo de que da
em diante lhe depusessemlado do prato dois pes em vez de um!


- Muito bem! considerou o diretor.-  dos tais que paga por meio e come por dois! Seja tudo por
amor de Deus!


III


Assim ia vivendo o Coruja, desestimado e desprotegido no colgio, e corno que formando na
sua esquisitice uma ilha completamente isolada dos bons e dos maus exemplos, que em torno
dele se agitavam.


Dir-se-ia que nascera encascado em grossa armadura de indiferena, contra a qual se
despedaavam as vrias manifestaes do meio em que vivia, sem que elas jamais
conseguissem lhe corromper o nimo. A tudo e a todas parecia estranho, corno se naquele
corao, ainda to novo, j no houvesse unia s fibra intacta.


E, todavia, nenhum dos companheiros seria capaz de maltratar em presena dele um dos mais
pequenos do colgio, sem que o esquisito tomasse imediatamente a defesa do mais fraco. No
consentia igualmente que fizessem mal aos animais, e muita vez o encontraram acocorado
sobre a terra protegendo um mesquinho rptil, ou lhe enxergavam vivos sinais de ameaas em
favor de alguma pobre borboleta perseguida pelos estudantes.


Na sua mstica afeio aos fracos e indefesos, chegava a acarinhar as rvores e plantas do
jardim e sentia-se v-las mal amparadas na hora do recreio. No reconhecia em ningum o
direito de separar uma flor da haste em que nascera ou encarcerar na gaiola um msero
passarinho.


E tudo isso era feto e praticado naturalmente, sem as tredas aparncias de quem deseja
constituir-se em modelo de bondade. Tanto assim, que tais coisas s foram deveras percebidas
por um antigo criado da casa, o Milito, a quem os meninos alcunharam por pilhrias de "Dr.
Caixa-dculos".


O Caixa-dculos era nada mais do que um triste velhote de cinqenta a sessenta anos, vindo
em pequeno das ilhas e que aqui percorrera a tortuosa escala das ocupaes sem futuro. Fora
porteiro de diversas ordens religiosas, moo de cmara a bordo de vrios navios, depois
permanente de polcia, em seguida sacristo e criado de um cnego, depois moo de hotel,
bilheteiro num teatro, copeiro em casa de um titular e afinal, para descansar, criado no colgio
em que se achava o Coruja.


De tal peregrinao apenas lhe ficara um desgosto surdo pela existncia, um vago e triste
malquerer pelos fortes e pelos vitoriosos.


E foi por isso que ele simpatizou com o Coruja; porque o supunha ainda mais desprotegido e
ainda mais desarmado do que ele prprio.


Era, enfim, o nico em quem o pequeno do padre, durante o seu primeiro ano de colegial, nem
sempre encontrara o desprezo e a m vontade.


Vindas as frias, o Revmo. Joo Estvo, a pretexto de que o pupilo lucraria mais ficando no
colgio do que indo para casa, escreveu a esse respeito ao Dr. Mosquito, e bem contra a
vontade deste, o pequeno por l ficou.


Andr recebeu a notcia, como se j a esperasse, e viu, sem o menor sintoma de desgosto,
partirem, pouco a pouco, todos os seus companheiros. Destes, a alguns vinham buscar os
prprios pais e as prprias mes: e, ali, entre as frias paredes do internato, ouviam-se durante
muitos dias, quentes palavras de ternura, e sentiam-se estalar beijos de amor, por entre
lgrimas de saudade.


S ele, o Coruja, no teve nada disso.


Viu despovoar-se aos poucos o colgio; retirarem-se os professores, os empregados, e afinal o
ltimo colega que restava. E ento julgou-se de todos s e abandonado como uma pobre
andorinha que no pudesse embandar-se  revoada das companheiras.


S, completamente s.


 verdade que o diretor ocupava o segundo andar com a famlia, isto , com a mulher e duas
filhas ainda pequenas; mas as frias aproveitavam eles para os seus passeios, e alm disso, o
Coruja s poderia procur-los  hora das refeies. Embaixo ficaram apenas o hortelo e o
Caixa-dculos.


Andr pediu licena ao diretor para tomar parte no servio da horta e obteve-a prontamente.


Com que prazer no fazia ele esse trabalho todas as manhs! Ainda o sol no estava fora de
todo e j o Coruja andava pela chcara, descalo, em mangas de camisa, calas arregaadas, a
regar as plantas e a remexer a terra. O hortelo, vendo o gosto que o ajudante tomava pelo
servio, aproveitava-o quanto podia e limitava-se a dirigi-lo.
-  Coruja, gritava-lhe ele, j em tom de ordem, a perna tranada e o cachimbo no canto da
boca: - apara-me a essa grama! Ou ento: Remexe-me melhor aquele canteiro e borrifa-me um
pouco mais a alface, que est a me parecer que levou pouca gua!


As horas entre o almoo e o jantar dedicou-as o Coruja aos seus estudos, e s quatro da tarde
descia de novo  chcara, onde encontrava invariavelmente o Caixa-dculos s voltas com uma
pobre flauta, dentro da qual soprava ele o velho repertrio das msicas de seu tempo.


Foi essa miservel flauta que acordou no corao de Andr o gosto pela msica. Caixa-dculos
deu por isso, arranjou um outro instrumento e props-lhe ministrar algumas lies ao pequeno.
Esse aceitou com um reconhecimento muito digno de to boa vontade, mas sem dvida de
melhor mestre, porque manda a verdade confessar que aquele no ofuscava a glria de
nenhum dos inmeros flautistas que ocupam a superfcie da terra, contando mesmo os maus,
os pssimos e os insuportveis.


Mas o caso  que, depois disso, eles l passavam as ltimas horas da tarde, a duelarem-se
furiosamente com as notas mais temveis que um instrumento de sopro pode dardejar contra a
pacincia humana; e terminada a luta, recolhia-se Andr ao dormitrio e pegava no sono at 
madrugada seguinte.


As frias no lhe corriam por conseguinte to contrrias, como era de supor, e s dois
desgostos o atormentavam. Primeiro, no poder comprar uma flauta nova e boa; segundo, ver
sempre fechada a biblioteca do Colgio.


Que curiosidade lhe fazia aquela biblioteca!


Ele a rondava como um gato que fareja o guarda-comida; parecia sentir de fora o cheiro do que
havia de mais apetitoso naquelas estantes, e, por seu maior tormento, bastava trepar-se a uma
cadeira e espiar por cima da porta, para devassar perfeitamente a biblioteca.


Um suplcio! Vinham-lhe at mpetos de arrombar a fechadura; e, como consolao, passava
horas esquecidas sobre a cadeira, na pontinha dos ps, a olhar de longe para os livros,
procurando distinguir e ler o que diziam eles nas letras de ouro que expunham nas lombadas.


Alguns, ento, lhe produziam verdadeiras angstias, principalmente os grandes, os de lombo
muito largo, que a estavam de costas, soberbos, como bojudos sbios, concentrados e
adormecidos na sua cincia.


O Coruja tivera sempre um pendor muito particular por tudo aquilo que lhe cheirava a alfarrbio
e lnguas mortas. Adorava os livros velhos, em cuja leitura encontrasse dificuldades a vencer;
gostava de cansar a inteligncia na procura de explicao de qualquer ponto duvidoso ou de
qualquer fosse sujeita a vrias interpretaes.


J desde a casa do padre Estvo que semelhante tendncia se havia declarado nele.  que
seu gnio retrado e seco dava-se maravilhosamente com esses amigos submissos e generosos
- os livros; esses faladores discretos, que podemos interromper  vontade e com os quais nos 
permitido conversar dias inteiros, sem termos alis obrigao de dar uma palavra.
Ora, para o Andr, que morria de amores pelo silncio, isto devia ser o ideal das palestras. Alm
do que,  sua morosa e arrastada compreenso s o livro podia convir. O professor sempre se
impacienta, quando tem de explicar qualquer coisa mais de uma vez; o livro no, o livro exige
apenas a boa vontade de quem estuda, e no Coruja a boa vontade era justamente a qualidade
mais perfeita e mais forte.


Um dia, o diretor, descendo inesperadamente ao primeiro andar, encontrou-o to embebido a
espiar para dentro da biblioteca que se chegou a ele sem ser sentido e deu-lhe uma ligeira
palmada no lugar que encontrou mais  mo.


O Coruja, trepado s costas de uma cadeira e agarrado  bandeira da porta, virou-se muito
vermelho e confuso, como se o tivessem surpreendido a cometer um crime.


- Que faz o senhor a, seu Miranda?


- Olhava.


- Que olhava o senhor?


- Os livros.


O Dr. Mosquito encarou-o de alto a baixo, e, depois de medir um instante acrescentou:


- V l acima e diga  mulher que mande as minhas chaves.


Andr saltou do seu observatrio e apressou-se a dar cumprimento s ordens do diretor.


Este, logo que chegaram as chaves, abriu a biblioteca e entrou. O pequeno,  porta, invadiu-a
com um olhar to sfrego e to significativo, que o Dr. Mosquito o chamou e perguntou-lhe qual
era o livro que tanto o Impressionara.


Andr coou a cabea, hesitando, mas a sua fisionomia encarregou-se de responder, visto que
o diretor, depois de lamentar com um gesto a grande quantidade de p encamado sobre os
livros, foi  fechadura, separou do molho de chaves a da biblioteca e disse, passando-lha:


- Durante o resto das frias, fica o senhor encarregado de cuidar destes livros e de fazer tudo
isto arranjado e limpo. Quer?...


Andr sacudiu a cabea afirmativamente e apoderou-se da chave com uma tal convico, que o
diretor no pde deixar de rir.
Logo que se viu s, tratou de munir-se de um espanador e de um pano molhado, e, com o
auxlio de uma escadinha que havia na biblioteca, principiou a grande limpeza dos livros.


No abriu nenhum deles, enquanto no deu por bem terminada a espanao. Metdico, como
era, no gostava de entregar-se a qualquer coisa sem ter de antemo preparado o terreno para
isso.


Oh! Mas quo diferente foi do que esperava a impresso recebida, quando se disps a usufruir
do tesouro que lhe estava franqueado.


No sabia qual dos livros tomar de preferncia; no conseguia ler de nenhum deles mais do que
algumas frases soltas e apanhadas ao acaso.


E, toda aquela sabedoria encadernada e silenciosa, toda aquela cincia desconhecida que ali
estava, por tal forma o confundiu e perturbou que, no fim de alguns segundos de dolorosa
hesitao, o Coruja como que sentia libertar-se dos volumes a alma de cada pgina para se
refugiarem todas dentro da cabea dele.


Bem penosas foram as suas primeiras horas de biblioteca. O desgraadinho quase que se
arrependeu de hav-la conquistado com tanto empenho, e chegue a desejar que, em vez de
tamanha fartura de livros, lhe tivessem franqueado apenas quatro ou cinco.


Mas veio-lhe em socorro uma idia que, mal surgiu, comeou logo por acentuar-se-lhe no
esprito, como uma idia de salvao.


Era fazer um catlogo da biblioteca.


Esta luminosa idia s por si o consolou de toda a sua decepo e de todo o seu vexame.
Afigurava-se-lhe que, catalogando todos aqueles livros num s, v-los-ia disciplinados e
submissos ao seu governo. Entendeu que, por esse meio, t-lo-ia a todos debaixo da vista,
arregimentados na memria, podendo evoc-los pelos nomes, cada um por sua vez, como o
inspetor do colgio fazia a chamada dos alunos ao abrir das aulas.


E o catlogo ficou sendo a sua idia fixa.


Principiou a cuidar dele logo no dia seguinte. Mas, a cada instante, surgiam-lhe dificuldades:
no sabia como dar comeo  sua obra, como lev-la a efeito. Tentou arranjar a coisa
alfabeticamente; teve, porm, de abandonar essa idia, como inexeqvel; numerou as estantes
e experimentou se conseguia algum resultado por este sistema; foi tudo intil.


Afinal, depois de muitas tentativas infrutferas, o acaso, no fim de alguns dias, veio em seu
auxlio, atirando-lhe s mos o catlogo de uma biblioteca da provncia.


Era um folheto pequeno, encadernado e nitidamente impresso.
Coruja abriu-o religiosamente e passou o resto do dia a estud-lo. Na manh seguinte, a sua
obra achava-se comeada, pela nona ou dcima vez,  certo, mas agora debaixo de auspcios
muito mais prometedores.


E em todo o resto das ferias foi o seu tempo sistematicamente dividido entre o trabalho da horta,
o estudo de seus compndios, as lies do Caixa-dculos e a organizao do famoso catlogo.
Esta, porm, era de todas as suas ocupaes a mais querida e desvelada; o que, entretanto,
no impediu que ela ficasse por acabar depois da reabertura das aulas.


- Fica para mais tarde, pensou o Coruja, cheio de confiana na sua vontade.


E, sem confiar a sua idia a ningum, nem mesmo ao diretor, passava todos os dias feriados e
todas as horas de recreio, metido na biblioteca, de cuja fiscalizao continuava encarregado.


IV


Entre os novos alunos, que entraram no seguinte ano para o colgio do Dr. Mosquito, vinha um,
que se chamava Teobaldo Henrique de Albuquerque. Menino de doze anos, muito bonito,
elegante e criado com mimo.


Falava melhor o ingls e o francs do que a sua prpria lngua, porque estivera mais tempo em
Londres do que no Brasil.


O tipo desta criana fazia um verdadeiro contraste com o do Coruja. Era dbil, espigado, de uma
palidez de mulher; olhos negros, pestanudos, boca fidalga e desdenhosa, principalmente
quando sorria e mostrava a prola dos dentes. Todo ele estava a respirar uma educao
dispendiosa; sentia-se-lhe o dinheiro na excelncia das roupas, na delicada escolha de
perfumes que a famlia lhe dava para o cabelo e para o leno, como em tudo de que se
compunha o seu rico enxoval de pensionista.


Criana como era, j falava de coisas que o outro nem sonhava ainda; tinha j predilees e
esquisitices de gosto; discutia prazeres, criticava mulheres e zombava dos professores sem que
estes alis se dessem por achados, em razo dos obsquios pecunirios que o colgio devia ao
pai de Teobaldo, o Sr. Baro do Palmar.


No obstante, esses mesmos dotes e mais sua estroinice de menino caprichoso, sua altivez
natural e adquirida por educao abriam em torno dele o dio ou a inveja da maior parte dos
condiscpulos. Logo ao entrar no colgio, fizera muitos inimigos e, pouco depois, era tido e
julgado como o mais embirrante e o mais insuportvel entre todos os alunos do Dr. Mosquito.


No lhe perdoavam ser ao mesmo tempo to rico, to formoso, to inteligente e to gentilmente
vadio. Alm de tudo isso, como se tanto j no bastava, havia ainda para o fazer malquisto dos
companheiros aquela escandalosa proteo que lhe votavam os professores, apesar da
formidvel impertinncia do rapaz.
Em verdade a todos falava. Teobaldo com uma sobranceria ofensiva e provocadora. No seu
modo de olhar, no tom da sua voz, no desdm de seus gestos, sentia-se a uma lgua de
distncia o hbito de mandar e ser obedecido.


Esta constante arrogncia, levava ao supremo grau, afastou de junto dele todos os seus
condiscpulos. Mas o orgulhoso no parecia impressionar-se com o isolamento a que o
condenavam as suas maneiras, e, se o sentia, no deixava transparecer em nenhum dos gestos
a menor sombra de desgosto.


Ningum o queria para amigo.


Um domingo, porm, ao terminar o almoo, ouviu dentre um certo grupo de seus colegas uma
palavra de ofensa, que lhe era dirigida.


Voltou-se e, apertando os olhos com um ar mais insolente que nunca, exclamou para o grupo:


- Aquele de vocs que me insultou, se no  um covarde, apresente-se! Estou disposto a dar-lhe
na cara!


Ningum respondeu.


Teobaldo franziu o lbio com tdio e, atirando ao grupo inteiro, por cima do ombro, um olhar de
desprezo, afastou-se. dizendo entredentes:


- Canalha!


Mas, ao chegar pouco depois  chcara, seis meninos dos mais fortes dos que compunham o
grupo, aproximaram-se dele e exigiram que Teobaldo sustentasse o que havia dito no salo.


Teobaldo virou-lhes as costas e os seis iam precipitar-se sobre ele, quando o Coruja, que tudo
presenciara a certa distncia, de um pulo tomou-lhes a frente e os destroou a murros.


Acudiu o inspetor, fez cessar a briga e, tomando o Coruja pelo brao, levou-o  presena do Dr.
Mosquito.


Teobaldo acompanhou-o.


Exposto o ocorrido, foi o Coruja interrogado e confessou que era tudo verdade: "Batera em
alguns de seus companheiros".


- Pois ento recolham-no ao quarto do castigo, disse o diretor. Passar a o domingo, fazendo
consideraes sobre o inconveniente das bravatas!
- Perdo! observou Teobaldo; quem tem de sofrer esse castigo sou eu! Fui o causador nico da
desordem. Este menino no tem a menor culpa!


E apontou para o Coruja.


-  senhores! Pois se eu o vi atracando-se aos outros, como um demnio! exclamou o inspetor.


- E ele prprio o confessa... acrescentou o diretor. Vamos! Cumpra-se a ordem que dei!


- Nesse caso eu tambm serei preso, respondeu Teobaldo.


E to resolutamente acompanhou o colega, que ningum o deteve.


Foram recolhidos  mesma priso, e desta vez, graas  influncia de Teobaldo, o outro, alm
de no ter de gramar o escuro, recebeu licena para levar consigo alguns livros e a flauta que
lhe emprestara o Caixa-dculos.


Logo que os dois meninos se acharam a ss, Teobaldo foi ter com o Coruja e disse, apertando-
lhe a mo:


- Obrigado.


Andr fez um gesto com a cabea, equivalente a estas palavras: "No tem que agradecer,
porque o mesmo faria por qualquer criatura".


Se o senhor fazia parte do grupo que insultei, volveu Teobaldo, peo-lhe desculpa.


- No fazia, respondeu o outro, dispondo-se a entregar-se de corpo e alma  sua ingrata flauta.


Felizmente para o colega, foram interrompidos por uma pancada na porta.


Teobaldo correu a receber quem batia, e soltou logo uma exclamao de prazer:


- Oh! Voc, Caetano! Como esto todos l e casa? Mame est melhor? E papai, papai que faz
que no vem me ver, como prometeu?


Caetano, em vez de responder, pousou no cho uma cesta que trazia, e abriu os braos para o
menino, deixa do correr pelo sorriso de seu rosto duas lgrimas de ternura que se lhe
escapavam dos olhos.
Era um homem de meia idade, alto, magro, de cabelos grisalhos,  escovinha, cara toda
raspada; e to simptico, to bom de fisionomia, que a gente gostava dele  primeira vista.


Trajava uma libr cor de rap, com botes de lato e alamares de veludo preto.


Caetano entrara muito criana para o servio do av de Teobaldo, pouco antes do nascimento
do pai deste, nunca mais abandonou essa famlia, da qual mais adiante teremos de falar, e por
onde se podero avaliar os laos de velha amizade que ligavam aquele respeitoso criado ao
neto de seu primeiro amo.


Por enquanto diremos apenas que o bom Caetano. viu crescer ao seu lado o pai de Teobaldo;
que o acompanhou tanto nas suas primeiras correrias de rapaz, como mais tarde nas suas
aventuras polticas durante as revolues de Minas; e que a intimidade entre esses dois
companheiros por tal forma os identificou, que afinal criado era j consultado e ouvido como um
verdadeiro membro e amigo da famlia a que se dedicara.


- Mas, Caetano, que diabo veio voc fazer aqui? perguntou Teobaldo. H novidade l por casa?
Fale; Mame piorou?


- No; graas a Deus no h novidade. A senhora baronesa no piorou, e parece at que vai
melhor; o que ela tem  muitas saudades de vossemec.


- E papai, est bom?


- Nh-Mil (era assim que chamava o amo) est bom, graas a Deus. Foi ele quem me mandou
c. Vim trazer um dinheiro ao doutor.


- Ah! Ao diretor? Quanto foi?


- Trezentos mil ris.


- Seriam emprestados, sabes?


- Creio que sim, porque trouxe uma letra que tem de voltar assinada...


- E isso que trazes a no cesto  para mim?


- , sim senhor.  a senhora baronesa quem manda.


Teobaldo apressou-se a despejar a cesta. Vinham doces, queijo, nozes, figos secos, passas,
amndoas, frutas cristalizadas e uma garrafa de vinho Madeira.
- Isto  que  pouco; devia ter vindo mais... considerou ele, pousando a garrafa no cho.


- Pois fique sabendo que, se no fosse Nh-Mjl, nem essa teria vindo... A senhora baronesa
chegou a zangar-se com ele.


E, mudando de tom:


- Mas  verdade, vossemec est preso?


- Qual! Estou aqui porque assim o quis.


Em quatro palavras Teobaldo contou o motivo da sua priso.


- Ah! disse o criado, vossemec  seu pai, sem tirar nem pr!


- Sim, mas no contes nada em casa...


- No h novidade, no senhor!


E, depois de conversarem ainda mais alguma coisa, Caetano abraou de novo o rapaz,
despediu-se do outro e retirou-se, pretextando que no convinha demorar-se para no chegar
muito tarde  fazenda.


Outra vez fechada a priso, Teobaldo, restitudo ao seu bom humor com o presente da famlia,
voltou-se, j risonho, para o companheiro e disse, batendo-lhe no ombro:


- Ao menos temos aqui com que entreter os queixos. E, dispondo tudo sobre uma cadeira,
principiou a expor o contedo dos pacotes e das caixinhas de doce: Felizmente a garrafa est
aberta e o pcaro dgua serve para beber vinho. No acha que isto veio a propsito?


- , resmungou o Coruja.


- Pois ento, mos  obra! Gosta de vinho?


- No sei...


- Como no sabe?


- Nunca provei.
- Nunca? Oh!


-  exato.


- Pois experimente. H de gostar.


Andr entornou no pcaro trs dedos de vinho e bebeu-o de um trago.


- Que tal? perguntou o outro fazendo o mesmo.


-  bom! disse Coruja a estalar a lngua.


- Com um pouco de queijo e doce ainda  melhor, atire-se!


Andr no se fez rogado, e os dois meninos, em face um do outro, puseram-se a petiscar, como
bons amigos. Teobaldo, porm, depois de repetir vrias vezes a dose do vinho, precisava dar
expanso ao seu gnio comentador e satrico; ao passo que o companheiro saboreava em
silncio aqueles delicados pitus, que chamavam ao mal confortado paladar delcias
inteiramente novas e desconhecidas para ele.


E contentava-se a resmungar, de vez em quando:


-  muito bom?  muito bom!


- Pois eu, sempre que receber presentes l de e prometeu o outro, hei de cham-lo para
participar deles. Est dito?


- Est.


- Voc chama-se...


- Andr.


- De...


- Miranda.


- Andr Miranda.
- De Melo.


- Ah!


- E Costa.


- No sabia. Como todos no colgio s o tratam por "Coruja"...


-  alcunha.


- Foi aqui que lha puseram?


- Foi.


- Por qu?


- Porque eu sou feio.


- E no fica zangado quando lhe chamam assim?


- No.


- Eu tambm faria o mesmo, se me pusessem alguma. Os nossos colegas so todos uns
pedaos dasnos, no acha?


Coruja sacudiu os ombros e Teobaldo, um pouco agitado pelo Madeira, comeou a desabafar
todo o ressentimento que at ai reprimia com tanto orgulho. Falou francamente, queixou-se dos
companheiros, julgou-os a um por um, provando que eram todos aduladores e invejosos.


- No quero saber deles para nada! exclamou indignado. Voc  o nico com que me darei!


E, muito loquaz e vrio, passou logo a falar dos colgios europeus, do modo pelo qual a se
tratavam entre si os estudantes, dos modos de brincar, de estudar em comum, do modo, enfim,
pelo qual se protegiam e estimavam.


Andr o escutava, sem dar uma palavra, mas patenteando no rosto enorme interesse pelo que
ouvia.
Era a primeira vez que se achava assim, em comunicao amistosa com um seu semelhante;
era a primeira vez que algum o escolhia para confidente, para ntimo. E sua alma teve com a
surpresa deste fato o mesmo gozo de impresses que experimentara ainda h pouco o seu
paladar com os saborosos doces at a desconhecidos para ele.


E o Coruja, a quem nada parecia impressionar, comeou a sentir afeio por aquele rapaz, que
era a mais perfeita anttese do seu gnio e da sua pessoa.


Quando Salustiano veio abrir-lhes a porta  hora do jantar, encontrou Teobaldo de p, a
discursar em voz alta, a gesticular vivamente, defronte do outro que, estendido na cadeira,
toscanejava meio tonto.


- Ento? exclamou o homem das barbas longas. - Que significa isto?


- Isto qu,  meu cara de quebra-nozes? interrogou Teobaldo soltando-lhe uma palmada na
barriga.


- Menino! repreendeu o homem; no quero que me falte ao respeito!


- E um pouco de Madeira, no queres tambm?


- O senhor bem sabe que aqui no colgio  proibido aos alunos receberem vinho.


- Para os outros, no duvido! Eu hei de receber sempre, se no digo ao velho que no empreste
mais um vintm ao diretor.


- No fale assim... O senhor no se deve meter nesses negcios.


- Sim, mas em vez de estares a a mastigar em seco e a lamber os beios,  melhor que
mastigues um pouco de requeijo com aquele doce.


- Muito obrigado.


- No tem muito obrigado. Coma!


E Teobaldo, com sua prpria mo, meteu-lhe um doce na boca.


- Voc  o diabo! considerou Salustiano, j sem nenhum sinal de austeridade. E, erguendo a
garrafa  altura dos olhos: - Pois os senhores dois beberam mais de meia garrafa de vinho? !.
Andr ao ouvir isto, comeou a rir a bandeiras despregadas, o que fazia talvez pela vez primeira
em sua vida.


Pelo menos, o fato era to estranho que tanto Salustiano como Teobaldo caram tambm na
gargalhada.


- E no  que esto ambos no gole?... disse homem, a cheirar a boca da garrafa e, sem lhe
resistir ao bom cheiro, despejou na prpria o vinho que restava.


- Que tal a pinga? perguntou Teobaldo.


-  pena ser to mal empregada... responde o barbado a rir.


- Este Salustiano  um bom tipo! observou o menino, enchendo as algibeiras de frutas e doces.


- Ora, quando o diretor no pode com o senhor eu  que hei de poder...


E, querendo fazer-se srio de novo:


- Vamos! Vamos! Aviem-se, que est tocando a sineta pela segunda vez!


- No vou  mesa, respondeu Teobaldo - daqui vou para o jardim; diga ao doutor que estamos
indispostos.


E, voltando-se para o Coruja.


- Oh! Andr! toma conta de tudo isso e vamos l para baixo ouvir a flauta do Caixa-dculos.


V


Desde ento os dois meninos fizeram-se amigos.


Foi justamente a grande distncia, o contraste, que os separava, que os uniu um ao outro.


As extremidades tocavam-se.


Teobaldo era detestado pelos colegas por ser muito desensofrido e petulante; o outro por ser
muito casmurro e concentrado. O esquisito e o travesso tinham, pois, esse ponto de contato - o
isolamento. Achavam--se no mesmo ponto de abandono, viram-se companheiros de solido, e 
natural que se compreendessem e que se tornassem afinal amigos inseparveis.


Uma vez reunidos, completavam-se perfeitamente. Cada um dispunha daquilo que faltava no
outro; Teobaldo tinha a compreenso fcil, a inteligncia pronta; Coruja o mtodo, e a
perseverana no estudo; um era rico; o outro econmico; um era bonito, dbil e atrevido; o outro
feio, prudente e forte. Ligados, possuiriam tudo.


E, com o correr do ano, por tal forma se foram estreitando entre os dois os laos da confiana e
da amizade, que afinal nenhum deles nada fazia sem consultar o camarada.


Estudavam juntos e juntos se assentavam nas aulas e  mesa.


Por fim, era j o Andr quem se encarregava de estudar pelo Teobaldo; era quem resolvia os
problemas algbricos que lhe passavam os professores; era quem lhe arranjava os temas de
latim e o nico que se dava  maada de procurar significados no dicionrio Em compensao o
outro, a quem faltava pacincia para tudo isso, punha os seus livros, a sua vivacidade intelectual
 disposio do amigo, e dividia com este os presentes e at o dinheiro enviado pela famlia,
sem contar as regalias que a sua amizade proporcionava ao Coruja, fazendo-o participar da
ilimitada considerao que lhe rendia todo o pessoal do colgio, desde o diretor ao cozinheiro.


De todas as gentilezas de Teobaldo, a que ento mais impressionara ao amigo foi o presente de
uma flauta e de um tratado de msica, que lhe fez aquele volta de um passeio com o diretor do
colgio.


Coruja trabalhava  sua mesa de estudo quando o outro entrou da rua.


- Trago-te isto, disse-lhe Teobaldo apresentando-lhe os objetos que comprara.


- Uma flauta! balbuciou Andr no auge da comoo. - Uma flauta!


- V se est a teu gosto.


Coruja ergueu-se da cadeira, tomou nas mo instrumento, e experimentou-lhe o sopro, e ficou
to satisfeito com o presente do amigo que no encontrou uma s palavra para lho agradecer.


- Que fazias tu? perguntou-lhe Teobaldo.


Mas correu logo os olhos pelo trabalho que estava sobre a mesa e acrescentou:


- Ah!  ainda o tal catlogo!
-  exato.


- Gabo-te a pacincia! No seria eu!


E, tomando a bocejar uma das folhas escritas o outro tinha defronte de si.


- Isto vem a ser?...


- Isto  a numerao das obras, respondeu Andr.


- Ah! Vai numer-las...


- Vou. Para facilitar.


- E isto aqui? interrogou Teobaldo, tomando outra folha de pape].


- Isto  uma lista dos ttulos das obras.


- E isto?


- O nome dos autores.


- Depois renes tudo?


- Reuno.


- Melhor seria fazer tudo de uma mais prtico. Assim, no  to cedo que te vers livre dessa
maada!


- H de ficar pronto.


Mas estava escrito que o clebre catlogo no teria de ficar acabado nas frias deste ano. Urna
circunstncia extraordinria veio alterar completamente os planos do autor.


Logo ao entrar das frias, o pai de Teobaldo apresentou-se no colgio para ir em pessoa buscar
o filho.


Entrou desembaraadamente a gritar pelo rapaz desde a porta da rua.
- Ah!  V. Exa. exclamou o diretor com espalhafato, logo que o viu. E correu a tornar-lhe o
chapu e a bengala.


- Bela surpresa! Bela surpresa, Sr. Baro! Tenha a bondade de entrar para o escritrio!


- Vim buscar o rapaz. Como vai ele?


- Muito bem, muito bem.! Vou cham-lo no mesmo instante. Tenha a bondade V. Exa. de
esperar alguns segundos.


E, como se a solicitude lhe dera sebo s canelas, o Dr. Mosquito desapareceu mais ligeiro que
um rato.


O Sr. Baro do Palmar, Emlio Henrique de Albuquerque, era ainda nos seus cinqenta e tantos
anos uma bela figura de homem.


A vida acidentada e revessa, a que o condenara sempre o seu esprito irrequieto e turbulento
no conseguira alterar-lhe em nada o bom humor e as gentilezas cavalheirescas de sua alma
romntica e afidalgada


Como brasileiro, ele representava um produto legtimo da poca em que veio ao mundo.


Nascera em Minas, quando ferviam j os preldios da independncia, e seu pai, um fidalgo
portugus dos que emigraram para o Brasil em companhia do Prncipe Regente e de cujas
mos se passara depois para o servio de D. Pedro I, dera-lhe por me uma formosa cabocla
paraense, com quem se havia casado e de quem no tivera outro filho seno esse.


De tais elementos, to antagnicos, formou-se-lhe aquele, carter hbrido e singular, aristocrata
e rude a um tempo, porque nas veias de Emlio de Albuquerque tanto corria o refinado sangue
da nobreza, como o sangue brbaro dos tapuias.


Crescera entre os sobressaltos polticos do comeo do sculo, ouvindo roncar em torno do
bero a tempestade revolucionaria, que havia de mais tarde lhe arrebatar a famlia, os amigos e
as primeiras e mais belas iluses polticas.


Desde muito cedo destinado s armas, matriculou-se na Escola Militar, fez parte da famosa
guarda de honra do primeiro Imperador, e, com a proteo deste e mais a natural vivacidade do
seu temperamento mestio, chegou rapidamente ao posto de capito.


Teve, porm, de interromper os estudos para fazer a lamentvel guerra de Cisplatina, donde
voltou seis meses depois, sem nenhuma dar iluses com que partira, nem encontrar os pais e
amigos, que sucumbiram na sua ausncia, e nem mais sentir palpitar-lhe no corao o primitivo
entusiasmo pelos defensores legais da integridade nacional.
Orfanado, pois, ao vinte e dois anos, senhor de uma herana como bem poucos de tal
procedncia apanhavam nessas pocas, pediu baixa do Exrcito e levantou o vo para a
Europa, fazendo-se acompanhar por um criado que fora de seu pai, o Caetano, aquele mesmo
criado que, trinta e tantos anos depois, apareceu no colgio do Dr. Mosquito vestido de libr cor
de rap, com botes amarelos.


Ah! Se esse velho quisesse contar as estroinices que fez o querido amo pelas paragens
europias que percorreu! se quisesse dizer quantas vezes no exps a pele para livr-lo em
situaes bem crticas! quantas vezes por causa de alguma aventura amorosa ou por alguma
simples questo de rua ou de caf no voltaram os dois, amo e criado, para o hotel com o corpo
modo de pauladas e os punhos cansados de esbordoar!


Durante essas viagens levaram eles a vida mais aventurosa e extravagante que  possvel
imaginar; s voltaram para o Brasil no perodo da regncia, depois da abdicao do Sr. D. Pedro
I, por quem o rapaz no morria de amores.


Tornando  provncia, Emlio, talvez na inteno de refazer os seus bens j minguados, casou-
se, a despeito da oposio do Caetano, com uma rapariga de Malabar, filha natural de um
negociante portugus que comerciava diretamente com a ndia.


Atirou-se ento a especular no comrcio, mas o seu temperamento no lhe permitia demorar-se
por muito tempo no mesmo objeto e, achando-se vivo pouco depois de casado, lanou as
vistas para Diamantina, que nessa ocasio atraa os ambiciosos, e l se foi ele,. sempre
acompanhado pelo Caetano, explorar o diamante.


To depressa o viram em 1835 na Diamantina como em 1842 em Santa Luzia na revoluo ao
dos liberais mineiros, lutando contra a clebre reao conservadora manifestada pela lei de 3 de
Dezembro.


A galhardia e valor com que se houve nessas conjunturas valeu-lhe a estima de Tefilo Otoni e
outros importantes chefes do seu partido. Dessa estima e mais dos bens particulares que ento
gastou na poltica foi que se originou o ttulo, com que mais tarde o agraciaram.


A sua atitude poltica, a sua riqueza e os seus dotes naturais haviam-lhe j conquistado na corte
as melhores relaes deste tempo.


Uma vez, por ocasio de trazer para a uma excelente partida de diamantes, travou
conhecimento com um importante fazendeiro de caf, em cuja fazenda se hospedou por acaso.


Esse homem, mineiro da gema, era no lugar a principal influncia do partido conservador e, sem
dvida, um dos que primeiro explorou a famosa Mata do Rio, que ento comeava a cobrir-se
de novas plantaes.


O fazendeiro tinha uma filha e Emlio cobiou-a para casar. Mas o encascado poltico,
descendente talvez dos antigos emboabas que avassalaram o centro de Minas, no cedeu ao
primeiro ataque, e Emlio teve de lanar mo de todos os recursos insinuativos da sua raa para
conseguir captar a confiana do pai e o corao da filha. Quando l tornou segunda vez, deixou
o casamento ajustado. Ento foi ainda a Diamantina liquidar os seus negcios e, voltando 
Mata, recebeu por esposa a mulher que, mal sabia ele, estava destinada a ser a mais suave
consolao e o melhor apoio do resto de sua vida.


Foi desse enlace que nasceu Teobaldo, logo um ano depois do casamento.


Emlio s reapareceu na corte em 1847, onde os seus correligionrios, ento no poder, o
agraciaram com o titulo de Baro do Palmar; mas voltou logo para Minas e tratou de estabelecer
com os seus capitais uma fazenda na vizinhana da do sogro, que acabava de falecer.


Foi esse o melhor tempo de sua vida, o mais tranqilo e o mais feliz. S depois de casado,
Emlio pode avaliar e compreender deveras a mulher com quem se unira; s depois de casado
descobriu os tesouros de virtude que ela lhe trouxe pura casa, escondidos no corao.


Laura, assim se chamava a boa esposa, era um destes anjos, criados para a boa segurana do
lar domstico; uma dessas criaturas que nascem para fazer a felicidade dos que a cercam.


Em casa, senhores chamavam-lhe "Santa". E este doce tratamento conduzia com os seus atos
e com a sua figura.


- Esta, sim! exclamava o Caetano, entusiasmado Esta, sim,  uma esposa de conta, peso e
medida!


Pouco a pouco, Emlio fui amando a mulher, ao ponto de chegar a estremec-la, o que at a lhe
parecia impossvel.


No meio de toda essa felicidade, Teobaldo deu o. seus primeiros passos pela mo do pai, da
Santa e do fiel Caetano, que j o adorava tanto como os outros.


O pequeno era o mimo do casa; era o cuidado, o enlevo, a preocupao de quantos o viam
crescer.


Com que sacrifcio no consentiu, pois, o Baro do Palmar que o filho, da a seis anos, seguisse
sozinho para um colgio de Londres, donde havia de passar a Coimbra.


Mas assim era necessrio, porque Emlio, ento comprometido no trfico dos negros africanos,
viu-se atrozmente perseguido por Euzbio de Queiroz, terror dos negreiros e seu inimigo
poltico.


Eis a quem era e donde vinha o pai de Teobaldo.


E agora, visto aos cinqenta e tantos anos, aquele tipo correto na forma e um pouco desabrido
nas maneiras, estava ainda a dizer a sua procedncia mestia. Por mais despejado que fosse
todavia, cativava sempre com muita graa e muita insinuao. Ar gentil e franco, gestos largos,
corao to aberto a tudo e a todos, que at ao mal franquearia a entrada, desde que houvesse
l por dentro uma idia de vingana.


Possua ele um destes temperamentos desensofridos e ao mesmo tempo saturados de bom
humor; to prontos a zombar dos grandes perigos, como a inflamar-se  menor palavra que de
longe lhe tocasse em pontos de honra. Temperamentos que no conhecem meio termo e que
vo da pilhria  bofetada com a rapidez de um salto.


Amava loucamente a mulher e adorava o filho. Todas as suas paixes de outrora, todos os seus
gostos e hbitos sacrificados ao atual meio em que ele vivia, como que se transformaram em
um sentimento nico, em um amor de quinta-essncia, em uma dedicao sem limites por
Teobaldo. Mas no sabia educa-lo e por cegueira da afeio permitia-lhe todos os caprichos. A
mais extravagante fantasia do menino era uma lei em casa do Sr. Baro.


Defronte daquele pequeno Deus, ningum seria capaz de levantar a voz. Teobaldo vivia entre os
seus parentes como um prncipe no meio da sua corte; o pai, a me, uma irm desta, que agora
a acompanhava, todos pareciam apostados em merecer-lhe as graas em troca de amor e
submisso.


Pode-se, pois, facilmente calcular qual no seria a comoo de Emlio ao ver o filho, quando o
foi buscar nas frias, depois de tantos meses de ausncia.


Teobaldo! exclamou o baro, correndo para ele de braos abertos.


O menino saltou-lhe ao pescoo e deixou-se beijar, enquanto perguntava pelos de casa.


E depois, a queixar-se:


- Ora! prometeste que virias visitar-me, e nem uma vez!...


- No pude abandonar a fazenda um s dia durante o ano! Aquilo por l tem sido o diabo!...


Ia continuar, mas interrompeu-se para dizer ao filho:


- Anda da rapaz! Mexe-te, que, ao contrrio chegaremos muito tarde!. .. Vamos! Eu te ajudo
preparar a mala. Onde  o teu quarto?


Teobaldo tomou de carreira a direo do dormitrio e o pai acompanhou-o, a mexer com todos
os pequenos que encontrava no caminho.


- Quem  o tal Andr, de que falas tu nas cartas com tanta insistncia? perguntou ao filho,
enquanto este emalava a sua roupa.
- Ah! o Coruja?  o meu amigo; mostro-to j; espera ai.


E, quando atravessavam o salo, j com a mala pronta,


Teobaldo exclamou, puxando o brao do pai:


- Olha!  aquele! Aquele que est ao lado do diretor.


- E aquele padre, quem ? Aquele que conversa com o Dr. Mosquito?


- Deve ser o tutor de Andr.


- O tutor?


- Sim, porque Andr j no tem pai, nem me; foi o vigrio quem tornou conta dele e quem o
meteu no colgio.


- E agora veio busc-lo e leva-o para casa durante as frias?...


- Talvez no. J o ano passado, deixou-o ficar aqui sozinho com os criados.


- Mas pode ser que desta vez no acontea o mesmo...


Emlio foi, porm, convencido logo do contrrio pelo que ouviu entre o diretor e o padre, cujo
dilogo ia se esquentando a ponto de lhe chegar perfeitamente ao ouvidos.


- Abuso?... exclamava o vigrio. No vejo onde esteja o abuso!


- Pois no! replicava o diretor. Pois no! V Revma. vem ter comigo e pede-me que tome conta
de seu pupilo pela metade do que recebo pelos outros alunos; eu consenti, consenti, porque
sabia que o pobre menino no tem outra proteo alm da sua... Pois bem! chegam as frias; o
senhor no manda buscar, o que  sempre um inconveniente para um estabelecimento desta
ordem, e...


- No sei porque.. . interrompeu o padre.


- Sei eu, gritou o diretor. E a prova, olhe,  que tencionava fazer pelas frias um passeio  corte
com minha famlia, e no fiz!...
- Sim, mas o senhor, naturalmente, no foi detido s por este...


- Engana-se; seu pupilo foi o nico aluno que ficou no colgio durante as frias!


- No  culpa minha!


- De acordo e no  disso que fao questo. Deixa-me continuar...


- Pode continuar.


- Como dizia: o senhor, no satisfeito com o abatimento que lhe fiz durante o ano inteiro, pediu-
me ainda que lhe fizesse um novo abatimento durante as frias. Permita que lhe diga: o que V.
Rev.ma pagou no deu sequer para as comedorias, porque no  com to pouco que se
alimenta aquele rapaz! No imagina que apetite tem ele!


Andr, ao ouvir esta acusao, abaixou o rosto, envergonhado como um criminoso, e ps-se a
roer as unhas, sentindo sobre si o olhar colrico do padre, que o media da cabea aos ps.


- Pois bem! prosseguiu o diretor; chegam de novo as frias e, quando estou resolvido a remeter-
lhe o menino, vem o senhor e diz que desta vez no pode pagar tanto como das outras!... Ora!
h de V. Rev.ma convir que isto no tem jeito!


- Seria uma obra de caridade!... objetou o padre.


- Sim, mas eu j fiz o que pude...


- Pois v! Pagarei o mesmo que nas frias do ano passado.


- No, senhor, no serve! V. Rev.ma leva o menino e, se quiser, pode apresentar-mo de novo em
Janeiro. De outra forma no!


- Tenho ento de levar o pequeno comigo? exclamou o padre, fazendo-se vermelho.


- De certo, respondeu o diretor sem hesitar. As frias Inventaram-se para descanso e eu no
posso fica tranqilo, sabendo que h um aluno em casa. D-me mesmo trabalho que me dariam
vinte! No! No.


- Mas, doutor!.
- No, no quero!  um cuidado constante. Retiram-se todos os empregados e fica a o menino
s com o servente; de um momento para outro, uma travessura, uma tolice de criana, pode
ocasionar qualquer desgraa, e serei eu por ela o nico responsvel! No quero!


- E se eu pagar o mesmo que pago durante ano? perguntou o reverendo j impaciente e cada
vez mais vermelho.


- Nem assim.


- Nem assim? E quanto  preciso ento que eu pague?


- Nada, porque estou resolvido a no aceitar.


- De sorte que eu tenho por fora de levar o pequeno?...


- Fatalmente.


- Pois ento, plulas! exclamou o padre, deixando transbordar de todo a clera; plulas!


E, voltando-se para o Coruja:


- V! v fazer a trouxa e avie-se!


O Coruja afastou-se tristemente enquanto o padre resmungava: Peste! s me serve para me dar
maadas e fazer-me gastar o que no posso!


O baro. que a certa distncia ouvira tudo ao lado do filho, disse a este em voz baixa:


- Pergunta ao teu amigo se ele quer vir conosco passar as frias na fazenda.


Teobaldo, satisfeito com as palavras do pai, foi de carreira ter com o Coruja e voltou logo com
uma resposta afirmativa.


- Reverendo, disse ento o fidalgo aproximando-se do padre com suma cortesia. Por sua
conversao com o Dr. Mosquito fiquei sabendo que o contraria no poder deixar o seu pupilo
no colgio; lembrei-me, pois, se no houver nisso algum inconveniente, de lev-lo com o meu
filho, a passar as frias na fazenda em que resido.


O diretor deu-se pressa em apresent-lo um ao outro, desfazendo-se em zumbaias com o
baro. E o padre, cuja fisionomia se iluminara  proposta do adulado, respondeu curvando-se:
- Meu Deus! O Sr. baro pode determinar o que bem quiser!... Receio apenas que o meu pupilo
no saiba talvez corresponder a tamanha gentileza; uma vez, porm, que o generoso corao
de V. Exa. sente vontade de praticar esse ato de caridade..


- No, no  caridade! atalhou Emlio, francamente. No  por seu pupilo que fao isto, mas s
para ser agradvel a meu filho... Eles so amigos.


- Se V. Exa. faz gesto nisso.


- Todo o gosto.


- Pois ento pequeno est s ordens de V. Exa.


- Bem. Ficamos entendidos. Levo-o comigo e tr-lo-ei com Teobaldo, quando se abrirem de
novo as aulas.


O reverendo entendeu a propsito contar ao Sr. baro, pelo mido, a histria do "pobre rfo";
como ele o recolhera e sustentava, repetindo no fim de cada frase "Que no estava arrependido"
e, terminando com a financeira e conhecida mxima: "Quem d aos pobres, empresta a
Deus!..."


VI


-  bem feiozinho, benza-o Deus! o tal teu amigo!... disse o baro ao filho, enquanto Andr se
afastava para ir buscar a sua trouxa.


- Sim, mas um belo rapaz, respondeu Teobaldo. Tem por mim uma cega dedicao.


- Embora!  muito antiptico! Est sempre a olhar to desconfiado para a gente!... E parece
mudo - s me respondeu com a cabea e com os ombros s perguntas que lhe fiz.


-  assim com todos.


- Nem sei como vocs se fizeram amigos. Ento tu, que, segundo me disse ainda h pouco o
Mosquito, no te chegas muito para os teus colegas.


- S me chego para o Coruja.  o nico.


Coitado! O reverendo, ao que parece, no morre de amores por ele; nem  mo de Deus Padre
queria carreg-lo para casa.
- Um mau sujeito, o tal reverendo!


- Mas, com certeza no foi por maldade que o recolheu  sua proteo.


- No sei. Talvez!...


Emlio olhou mais atentamente para o filho e disse sorrindo:


- Tens as vezes coisas que me surpreendem. Com quem aprendeste tu a desconfiar desse
modo dos teus semelhantes?


- Contigo. No me tens dito tantas vezes que gente deve desconfiar de todo o mundo?


- Para no sofrer decepes a cada passo.. exato!


- E que, no caso de erro,  prefervel sempre nos enganarmos contra, do que a favor de quem
quer que seja!...


- De certo. O homem deve sempre colocar-se superior a tudo e fazer por dominar a todos. O
mundo meu filho, compe-se apenas de duas classes - a dos fortes e a dos fracos; os fortes
governam, os outros obedecem. Ama aos teus semelhantes, mas no tanto como a ti mesmo, e
entre amar e ser amado, prefere sempre o ltimo; da mesma forma que deves preferir sempre -
dar, a pedir, principalmente se o obsquio for de dinheiro.


- Achas mau que eu seja amigo do Coruja?


- Ao contrrio, acho excelente. Essa escolha, entre tantos colegas mais bem parecidos, confirma
o bom juzo que fao do teu orgulho, e mostra que tens sabido aproveitar-te dos meus
conselhos.


- No compreendo.


- Tambm ainda  cedo para isso.  preciso dar tempo ao tempo.


O Coruja reapareceu sobraando a sua pequena mala de couro cru.


- Pronto? perguntou-lhe Teobaldo.


O outro meneou a cabea, afirmativamente.
- Pois ento a caminho! exclamou Emlio, descendo a escada na frente dos rapazes.


Um carro os esperava  porta do colgio; o cocheiro tomou conta das bagagens; Emlio fez subir
os dois meninos e sentou-se defronte deles.


Andr, muito esquerdo com a sua roupinha de sarja, que ia j lhe ficando curta, no olhava de
frente para os companheiros e parecia aflito naquela posio; ao passo que Teobaldo, muito
filho de seu pai, conversava pelos cotovelos, dizia o que vira, praticara e assistira durante o ano,
criticando os colegas, ridicularizando os professores e, ao mesmo tempo, fazendo espirituosos
comentrios sobre tudo que lhe passava defronte dos olhos pela estrada.


Chegaram  fazenda s oito horas da noite. Vieram receb-los ao porto a Sra. baronesa e mais
a irm, D. Geminiana, acompanhadas ambas pelo Caetano, que trazia uma lanterna.


Santa lanou-se ao encontro do filho, cobrindo-o de beijos sfregos e a chorar e a rir ao mesmo
tempo, enquanto um escravo, que acudira logo, desembarcava as malas e ajudava o cocheiro a
desatrelar os animais.


Teobaldo passou dos braos da me para os da tia, que no menos o idolatrava, apesar de ser
um tanto resingueira de gnio.


- O nosso morgado traz-lhe um hspede! declarou o baro, empurrando brandamente o Coruja
para junto das senhoras  aquele amigo de que ele fala nas cartas. Vem fazer-lhe companhia
durante as frias.


Andr, muito atrapalhado de sua vida, porque jamais se vira em tais situaes, quando deu por
si estava nos braos da me do seu amigo e recebia um beijo na testa.


Coitado! Que estranhas sensaes no lhe produziu aquele beijo, ainda quente da ternura com
que foram dados os outros no verdadeiro filho! H quanto tempo no aspirava o pobre rfo
essa flor ideal do amor, essa flor sonora - o beijo!


Depois de sua me ningum mais o beijara. E Santa, sem saber, acabava de abrir o corao do
desgraado um sulco luminoso, que penetrava at s suas mais fundas reminiscncias da
infncia.


- Este menino est chorando! considerou D. Geminiana, que at a observara o Coruja como
quem contempla um bicho raro.


- Que tens tu? perguntou Teobaldo ao amigo.


- Nada, respondeu este, limpando as lgrimas na manga da jaqueta.
E o seu gesto era to desgracioso, coitadinho, que todos,  exceo de Santa, puseram-se a rir.


- No  nada, com efeito! A comoo talvez!... exclamou Emlio, batendo levemente nas costas
de Andr. - H muito tempo que no se v entre famlia! Daqui a pouco nem se lembrar que
chorou,.. No  verdade, amiguinho?


O Coruja disse que sim, enterrando a cabea nos ombros.


- Mas, vamos para cima, que eu estou morrendo por comer! protestou Teobaldo, passando os
braos em volta da cinta das duas senhoras e obrigando-as a acompanh-lo.


Assim subiram a pequena alameda de mangueiras que conduzia  casa e, dentro em pouco,
penetravam todos na sala de jantar.


A despeito de se achar naquelas alturas, Emlio cercava-se de todas as comodidades que lhe
permitia a poca. O seu primeiro casamento ahrira-lhe o gosto pelos objetos do luxo asitico e
trouxera-lhe uma riqussima coleo de louas, de sedas e cachemiras, xares, marfins,
pinturas, objetos de goma-laca, tetias de sndalo e tartaruga, e tudo mais que era de costume
nesse tempo introduzirem no Brasil os portugueses vezeiros no comrcio das ndias.


Viam-se ai tambm, pelas paredes, quadros antigos, de santos, alguns dos quais haviam
pertencido a D. Joo VI, e das mos deste passado s do av de Teobaldo. Viam-se igualmente
estalados retratos de damas e cavalheiros da corte de D. Jos e D. Maria I, detestavelmente
pintados, nas suas pitorescas vestimentas do sculo XVIII e defronte de cujas telas inutilizadas
e ressequidas pelo antiaristocrtico sol brasileiro, habituara-se o velho Caetano a possuir-se de
todo o respeito, porque lhe contava que entre aqueles figures havia parentes do seu rico amo.


E, ao lado da moblia, relativamente nova, descobriam-se clssicas peas de madeira preta, que
juntavam ao aspecto daquelas salas uma nota religiosa e grave.


Na biblioteca, alis bem guarnecida, destacavam--se, por entre as estantes, antigas armas
portuguesas, dispostas em simetria e caprichosamente entrelaadas por arcos e flechas do
Brasil. Na sala de jantar, dominando a larga e longa mesa da comida, havia um grande retrato
de Cromwell, representado na ocasio em que ele invadiu o parlamento ingls de chicote em
punho.


O Coruja passou por tudo isso, s cegas, sem nimo de olhar para coisa alguma. O desgraado
sentia perfeitamente que agora,  luz das velas, a sua antiptica figura havia de produzir sobre
todos uma impresso ainda muito mais desagradvel do que a primeira; sentia-se mais feio,
mais irracional, posto em contraste com aquela gente e com aqueles objetos.


Mal se assentaram  mesa, D. Geminiana continuou a observ-lo fixamente e concluiu afinal o
seu julgamento franzindo os cantos da boca em um trejeito de repugnncia; Santa, porm, no
se mostrou to desagradada e chegou a sorrir para o Coruja, quando lhe passou o prato de
sopa.
O baro que havia tomado a cabeceira, fizera sentar o filho ao seu lado e, segundo o costume,
conversava com ele, como se estivesse defronte de um homem.


Entretanto, o Coruja continuava to mudo e to fechado, que do meio para o fim do jantar
ningum mais se animava a dirigir-lhe a palavra.


Depois do caf, Santa ergueu-se da mesa e foi pessoalmente dar suas ordens para que nada
faltasse ao taciturno hspede; mandou acrescentar uma cama no quarto do filho e disse ao
outro que podia recolher-se quando quisesse.


Coruja apertou a mo de todos, um por um, e meteu-se no quarto.


J vais? perguntou-lhe o amigo. s um mau companheiro!


Na sala, onde ficou ainda a famlia, a conversar por algum tempo, veio o Coruja  discusso.
Emlio contou o dilogo que ouvira entre o padre e o diretor do colgio, e Geminiana, que
parecia disposta a no perdoar ao rfo o ser to desengraado, acabou ela prpria louvando o
procedimento do cunhado.


VII


Ningum seria capaz de descrever a comoo que se apoderou do Coruja na sua primeira
manh daquelas frias.


Ergueu-se antes do despontar do sol, vestiu uma roupa de Teobaido, que lhe mandaram pr ao
lado da cama, e, com as calas e as mangas dobradas, saiu mais o companheiro ao encontro
do baro, que j esperava por eles  margem de um rio, situado a cinqenta passos do fundo da
casa.


Era a que Emlio dava ao filho as suas lies de natao.


Mas no houve meio de conseguir que o Coruja se despisse na presena dos outros. J em
casa do padre, e tambm no colgio, observava-se a mesma coisa; tinha o Coruja um pudor
exageradssimo, uma invencvel vergonha da nudez; no podia admitir que ningum lhe visse a
pele do corpo. E s depois que o baro e o filho se banharam, consentiu ele, bem certo de que
no era espiado, em meter-se ngua.


Sem dar demonstrao, o Coruja estava maravilhado com tudo que ia se patenteando em torno
dele. Seu corao puro e compassivo, abria-se para receber amplamente aquela grande paz do
campo to simptica s precoces melancolias de sua pobre alma.


E as castas propenses do Coruja, os gostos imaculados que dormiam a sono solto dentro dele,
tudo isso acordou alegremente aos primeiros rumores da floresta e as primeiras irradiaes da
aurora como um bando de pssaros quando vai amanhecendo.
Nunca se julgou assim feliz. Todas aquelas, vozes da natureza. todo aquele aspecto tranqilo
das matas e das montanhas, tudo o fascinava secretamente, como se ele tivera nascido ali,
entre aquelas coisas to calmas, to boas, to comunicativas.


Os currais, os trabalhos agrcolas, o gado grosso e o gado mido, a criao dos animais
domsticos, a cultura dos legumes e hortalias, tudo isso tinha para ele um encanto muito
particular e muito suave.


- Ento? que tal achas isto aqui? perguntou-lhe Teobaldo, depois de mostrar ao amigo as
benfeitorias da fazenda.


- Tudo muito bom, respondeu ele.


- E o velho? Que tal!


- Bom, muito bom.


- E Santa?


- Uma Santa.


- E a tia Gemi?


- No  m.


- Um pouquinho resingueira, no e verdade? Mas no faas caso, que ela se chegar as boas.
Olha! se a quiseres agradar, faze-te devoto; reza-lhe dois padre-nossos e t-la-s conquistado.


E mudando logo de tom;


- Depois do almoo temos um passeio com o velho. Vais ver o que  bom! Sabes montar a
cavalo?


- No, mas aprendo. Onde  o passeio?


-  fazenda, do Hiplito. No  longe.


- Que Hplito?
- Um vizinho nosso, amigo do velho e pretendente  mo da tia Gemi.


- Ah!


- Vem comigo  estrebaria.


Defronte dos animais, Teobaldo chamou a ateno do amigo para um belo cavalo alazo, meio
sangue, que o pai lhe havia comprado ainda o ano passado.


- Eu preferia aquele burro... disse o Coruja, depois de examinar minuciosamente as bestas.


- Qu? Pois preferes o jumento quele belo alazo?...


- Decerto.


- Mas, por qu?


- No sei: gosto mais do burro que do cavalo.


- Que gosto! Antes andar a p.


E acrescentou ainda apontando para o alazo:


- Olha s para aquilo!  um animal nobre! Parece que tem conscincia do seu valor!


Terminado o almoo e vestido o Coruja pelo melhor que se pde arranjar, o baro, os dois
meninos e o velho Caetano abandonaram a casa e encaminharam-se para a estrebaria.


- Sabes, papai? O Andr prefere ir no burro.


- Porque no  cavaleiro. O burro com efeito  muito menos perigoso para ele. Anda com isso, 
Caetano.


Prontos os animais, o velho criado ajudou Coruja a cavalgar o burro.


- No tenha medo! gritou-lhe, a segurar a brida. Esta besta  mais mansa do que uma pomba!
Andr, todo vergado sobre o peito e a segurar as rdeas com ambas as mos, no conseguia
endireitar-se na sela do animal, por mais que o amigo lhe gritasse.


- Espicha as pernas, rapaz! Levanta a cabea! Pareces um macaco!


O baro e o filho, uma vez montados, meteram entre os seus cavalos o jumento em que ia o
Coruja, e puseram-se a caminho, seguidos a certa distncia pelo criado, cuja libr dava 
modesta cavalgata um ligeiro colorido de aristocracia.


Os primeiros minutos do passeio foram todos gastos com Andr, que, diga-se a verdade, fazia o
possvel para bem aproveitar as lies.


- Assim! assim! gritou-lhe Teobaldo, metendo as esporas no animal; afrouxa um pouco mais a
rdea e mete-lhe o chicote com vontade! No tenhas medo!


Coruja foi pr em prtica esta ordem, mas com tal precipitao o fez que o burro se espantou e,
dando um salto, cuspiu-o por terra.


-  diabo! exclamou Emlio, fazendo parar o seu cavalo.


- Ficaste magoado? perguntou Teobaldo ao amigo.


- Foi nada! disse o Coruja, erguendo-se a segurar o asno pela rdea, e, antes que lhe pusessem
embargos, tomou o estribo, galgou de um pulo a sela e, tocando o animal com certa energia,
gritou aos companheiros:


- Vamos adiante!


E s quatro da tarde, sem nenhum outro incidente desagradvel, voltavam  fazenda, trazendo
consigo o tal Hiplito, que parecia embirrar com o Coruja ainda mais do que a prpria noiva.


Mas com quem no embirraria aquele demnio de barbas pretas e cabelo ruivo, eterno
maldizente, capaz de encontrar pontos de censura na vida de Santa Maria e nas de S. Jos?


O baro suportava-o, to somente para no prejudicar a trintona cunhada, que arriscava-se a
ficar solteira se lhe escapasse ocasio de ter marido. Hiplito era j um bom arranjo, tinha
algum dinheiro e prometia ir muito mais longe com o seu sistema de economia que orava
sensivelmente pela avareza.


A poltica era talvez a sua paixo dominante; ele, porm, a disfarava quanto possvel e no se
metia com os partidos, receoso de gastar alguma coisa. Aparecia freqentemente na fazenda de
Emlio e estava sempre a criticar, em segredo com a noiva, a educao que davam a Teobaldo.
- Deus queira que no venham a amargar mais tarde! dizia Hiplito, cheio de repreenso. Nunca
vi em dias de minha vida semelhante gnero de ensino! Pois se at o fedelho trata aos pais por
tu, como se estivesse a falar com os negros! Enfim cada um faz o que entende; eu, porm,
tenho o direito de achar bom ou mau


Outro pretexto constante para a sua indignao era a vida dispendiosa de Emlio.


- Para que tanta prosapia e tanta galanice? resmungava frentico. Ora eu, que sei perfeitamente
com que linhas ele se cose, no posso ver isto a sangue frio! As conseqncias deste
esbanjamento bem sei eu quais so: os parentes que se apertem! Mas, no h de ser comigo
que ningum se arranjar: C sei quanto me custa a conservar o que tenho! E j no  pouco!


Que importava, porm, a mastigao do serrazina, se ela ficava sepultada nas discretas orelhas
de D. Geminiana?


No seria por isso que as matilhas do Sr. Baro deixariam de acordar as florestas com seus
latidos,  madrugada, em busca de anta ou do porco bravo; no seria por isso que a mesa do
fidalgo seria menos farta. os seus cavalos menos de raa e os seus vinhos menos escolhidos e
generosos.


*


Assim se abria para o Coruja uma existncia completamente nova e imprevista, mas muito ao
sabor do seu gnio rstico e simples.


A certos divertimentos ia entretanto s pela satisfao de acompanhar o amigo, porque, 
medida que ele se familiarizava com o campo, acentuavam-lhe os gostos e as preferncias. No
trocaria, por exemplo, a mais modesta pescaria pela melhor caada; desagradava-lhe o
alvoroo, o grito dos batedores, o barulho dos ces e no gostava de ver cair ao tiro das
escopetas a pobre besta foragida e tonta de terror.


A pesca, sim, era um prazer afinado pelo seu temperamento calmo e silencioso; passava horas
esquecidas, de canio em punho,  espera que se chimpasse um peixe no anzol. Teobaldo s
vezes o acompanhava ao rio por condescendncia, mas levava sempre consigo uma espingarda
passarinheira.


Era interessante de ver aqueles dois meninos to contrrios e to unidos, partirem de
madrugada para o mato, onde passavam quase sempre as melhores horas do dia. Andr
carregava consigo os utenslios da pesca e raro dizia uma palavra enquanto matejava; o outro,
com a sua passarinheira a tiracolo, falava por si e por ele, descrevendo entusiasmado as
faanhas do pai ou do av, que muitas vezes, em noite de invernada, ouvira da boca do velho
Caetano.


Todavia, um adorava o sossego, a doce e morna tranqilidade dos vales ou as margens
frondosas e sombreadas do rio, para onde levava os seus livros favoritos, entre os quais
Robinson Cruso tinha o primeiro lugar; o outro, no; o outro s queria da floresta aquilo que ela
lhe pudesse dar de imprevisto e aventuroso: queria a sensao, o perigo, o romanesco e o
transcendente.


s vezes, enquanto o Coruja lia ou pescava  beira dgua, Teobaldo, ao seu lado, deitado sobre
a relva, olhos fitos na verde-negra cpula das rvores, sonhava-se heri de mil conquistas, cada
uma do seu gnero; to depressa se via um grande poeta, como um poltico inexcedvel ou um
divino orador. Idealizava-se em toda as atitudes gloriosas dos grandes vultos; no lhe passava
pela vista a biografia de qualquer celebridade, fosse esta conquistada pelo talento, pela energia,
pela fortuna, pela intrepidez ou pela grandeza dalma, que ele no descobrisse logo em si muitos
pontos de contato com o biografado.


Teobaldo no amava o campo, aceitava-o apenas como um fundo pitoresco em que devia
destacar-se maravilhosamente a sua "extraordinria figura", aceitava-o como simples acessrio
das suas fantasias. Nunca lhe compreendera as vozes misteriosas nem jamais comunicara a
sua alma com a dele. Tanta assim que naqueles passeios, o que mais o preocupava no era a
contemplao da natureza e sim os pequenos detalhes elegantes que diziam respeito
particularmente  sua pessoa, como a roupa, o aspecto do animal que montava e a distino do
exerccio que escolhia.


Ele nunca saa a passear sem as suas trabalhadas botas de polimento, sem o seu calo de
flanela, a sua blusa abotoada at ao pescoo e cingida ao estmago por um cinturo com fivela
de prata; no saa sem o seu chapu de pluma, a sua bolsa de caa, o seu polvarinho, o seu
chumbeiro e, ainda que tivesse a certeza de no precisar da espingarda, levava-a, porque a
espingarda fazia parte do figurino.


Um dia exigiu que o pai lhe desse uma pistola e um punhal.


Para que diabo queres tu todo esse armamento? Perguntou-lhe o baro, sem poder deixar de
rir.


- Para o que der e vier...


- Descansa, que por aqui no ters necessidade disso.


- Mas eu queria...


- Pois bem, havemos de ver.


E, para no contrariar de todo o filho, o que no estava em suas mos, Albuquerque
estabeleceu nos fundos da casa um tirocnio de pontaria ao alvo e consentiu que o rapaz nos
seus passeios  mata trouxesse  cinta um rico punhal de ouro e prata que pertencera ao avo.


- Tu no queres tambm uma arma? perguntou Teobaldo ao Coruja.
- No; s se fosse um faco para cortar mato.


- Ora, vocs no querem tambm uma pea de artilharia? exclamou o baro, quando o filho lhe
foi pedir o que desejava o amigo.


Enquanto Teobaldo fazia tanta questo das aparncias e das exterioridades, Andr, enfronhado
em um fato de ordinria ganga amarela, que nem era dele, com um grande chapu de palha na
cabea e s vezes descalo, comprazia-se em percorrer a fazenda, no em busca de aventuras
como o amigo, mas de algum que lhe ensinasse o nome de cada rvore, a utilidade e a
serventia de todas elas, assim como o processo empregado na cultura de tais e tais plantaes,
o modo de semear e colher este ou aqueles cereais; qual a poca para isto qual a poca para
aquilo; queria que lhe explicassem tudo! Uma de suas mais arraigadas preocupaes era a
obscura existncia dos insetos; interessava-se principalmente pelos alados, procurando
acompanhar-lhes as metamorfoses, desde o estado de larva  mariposa. Se lhe despejassem
as algibeiras, haviam de encontrar a vrias crislidas, besouros e cigarras secas, como
encontrariam igualmente vrios caroos de fruta e pedrinhas de todos os feitios.


Algumas semanas depois de sua estada na fazenda era ele quem mais se desvelava pelos
carneiros e pelos porcos e quem ia dar quase sempre a rao aos cavalos. E, quando havia
uma ferradura a pregar ou qualquer tratamento a fazer nos animais, mostrava-se to afoito que
parecia o nico responsvel por isso.


No fim do primeiro ms das frias j o Coruja sabia nadar, correr a cavalo, atirar ao alvo e, por
tal forma havia-se familiarizado com a vegetao, com a terra viva, com o sol e com a chuva,
que parecia no ter tido nunca outro meio que no fosse aquele.


Em geral acordava muito mais cedo que o amigo e ainda dormia este a sono solto, j andava ele
a dar uma vista dolhos pelo servio das hortas e dos currais.


Dentre toda essa bela existncia s uma coisa o contrariava sem que todavia deixasse o Coruja
transparecer o menor desgosto contra isso: - era a teimosa perseguio que lhe fazia D.
Geminiana. A resingueira senhora achava sempre um mau gesto ou uma palavra dura para lhe
antepor aos atos mais singelos.


Manifestou-se-lhe logo a impertinncia a propsito da flauta do rapaz. Andr, coitado, no
desmentia o mestre que lhe dera o acaso, e D. Geminiana, uma noite em que conversava com o
noivo, depois de ouvir por algum tempo o fiel discpulo do Caixa-dculos arrancar do criminoso
instrumento certas melodias bastante equivocas, foi ter com ele, sacou-lhe vivamente das mos
o corpo de delito e, atirando com este para cima de um canap, tornou ao lado de Hiplito, sem
dar uma palavra ao delinqente, rico, porm, de gestos e caretas muito expressivas.


O homem das barbas ruivas e cabelo preto observou tudo isso em silncio, contentando-se
apenas com sacudir a cabea e apertar os beios em sinal de aprovao.


Coruja, quando os noivos mergulharam de novo no seu colquio, retomou sorrateiramente a
flauta e fugiu com ela para um caramancho de maracujs, que havia a alguns passos da casa.
Supunha que da no seria ouvido pela rspida senhora; mas, no dia seguinte, procurando o
instrumento no o encontrou em parte alguma.
- Minha flauta?... perguntou ele a D. Geminiana.


- Est guardada! disse essa secamente. S lha restituirei quando o senhor voltar para o colgio.


Coruja resignou-se, sem um gesto de contrariedade e no falou a ningum sobre esse
incidente, nem mesmo ao amigo.


Com efeito, s tornou a ver sua querida flauta ao terminar das frias, quando se dispunham, ele
e Teobaldo, a voltar para o internato do Dr. Mosquito.


O baro foi lev-los em pessoa ao colgio, e Santa, chorando pelo filho, despedira-se do Coruja,
dizendo-lhe:


- Continue a ser amigo de Teobaldo e ns faremos com que voc passe aqui as frias do ano
que vem.


VIII


Com o correr do seguinte ano, a dedicao do Coruja pelo amigo parecia crescer de instante
para instante. Uma leoa no defenderia os seus cachorros com mais amor e mais zelos.


J no se contentava Andr com resguard-lo das ameaas e malquerenas dos colegas, como
exigia tambm de todos que lhe rendessem a mesma estima e o mesmo respeito, que lhe
tributava ele.


Teobaldo, vadio como era por natureza, quase nunca estudava as lies, e quando no lhe
valiam os recursos do seu "proverbial talento" ou da sua astcia, tinha de copi-las quatro, cinco
ou seis vezes, conforme fosse o castigo. Ento se revoltava e queria protestar contra a sentena
dos mestres, mas o Coruja puxava-lhe a ponta do casaco e dizia-lhe baixinho:


- No te importes, no te importes, que eu me encarrego de tudo...


E, com efeito, mal chegava a hora do recreio, enterrava-se Andr no quarto de estudo e,
imitando a letra do amigo, aprontava as cpias; feliz com aquele trabalho, como se o descanso
do outro fosse o seu melhor prazer.


Muita vez perdeu com isso grande parte da noite, e no dia seguinte ainda encontrava tempo
para tirar os significados da lio do amigo, para resolver-lhe os problemas de lgebra e fazer-
lhe os temas de latim.


Uma vez, em que o Coruja se apresentou nas aulas sem haver preparado as prprias lies, o
professor exclamou com surpresa.
- Oh! Pois o senhor, seu Andr, pois o senhor no traz a sua lio sabida!... Ento que diabo fez
durante o tempo de estudo o senhor que no larga os livros?...


Entretanto, o outro Teobaldo, estava perfeitamente preparado.


Esta dedicao fantica de Coruja pelo amigo crescia com o desenvolvimento de ambos; mas
em Teobaldo a graa, o esprito e a sagacidade eram o que mais florescia; enquanto que no
outro eram os msculos, o bom senso, a fora de vontade e o frreo e inquebrantvel amor pelo
trabalho.


Agora, o pequeno do padre j emitia opinio sobre vrias coisas, j conversava; tudo isso,
porm, era s com o seu amigo ntimo, com o seu Teobaldo. Parecia at que,  proporo que
abria o corao para este, mais o fechava para os estranhos.


Quando terminou o ano, o filho do baro havia crescido meio palmo e o Coruja engrossado
outro tanto; aquele se fizera ainda mais esbelto, mais distinto e mais formoso; este ainda mais
pesado, mais insocivel e mais feio.


Afinal, assim to completados, formavam entre os seus companheiros uma fora irresistvel.
Teobaldo era a palavra cintilante e ferina, era a temeridade e o arrojo; o outro era o brao em
ao, a fora e o peso do msculo. Um provocava e o outro resistia.


Um era o florete aristocrtico, fino e aguado, que s tem a serventia de palitar os dentes do
orgulho; o outro era o malho grosseiro e slido, que tanto serve para esmagar, corno serve para
construir.


***


Partiram de novo para a fazenda,, deixando atrs de si a solene gratido do colgio pelo
catlogo da biblioteca, que "eles" concluram e ofereceram ao estabelecimento; e deixando
tambm por parte de seus condiscpulos um rastro de dios, dios que serviram alis durante o
ano para melhor os aproximar e unir, acabando por constitu-los em uma espcie de ser nico,
do qual um era a fantasia e outro o senso prtico.


Foi ento que lhes chegou a notcia da morte do padre Estvo; sucumbira inesperadamente a
um aneurisma, do qual nunca desconfiou sequer, e, no testamento, legara o pouco que tinha a
uma comadre e quela criada de mau gnio que o servira.


Quanto ao Coruja, nem uma referncia, nem um conselho ao menos; o que fazia crer fosse
escrito o testamento antes da adoo do pequeno e nunca mais reformado.


Esta circunstncia da morte do padre levou Andr a pensar em si, a pensar na sua vida e no seu
destino. Interrogou o passado e o futuro e, pela primeira vez, encarou de frente a posio que
ocupava ali, naquela fazenda do Baro do Palmar, esse protetor to do acaso como o primeiro
que tivera ele. Ento notou que na sua curta e triste existncia passara de uma para outra mo,
que nem um fardo intil e sem dono.
- Que ser de mim? perguntava o infeliz a si mesmo nas suas longas horas de concentrao.
Mas o amigo, com a prematuridade intuitiva do seu esprito, saltava-lhe em frente, antecipando
razes, como se adivinhara todos os pensamentos de Andr.


- Em que tanto pensas tu, meu urso? Perguntava-lhe ele, quando se achavam a ss, no bosque;
j ontem  noite no quiseste aparecer na sala e cada vez mais te escondes de todos, nem
como se fosse um criminoso.


- E quem sabe l?


- Qu? Se s um criminoso?...


- Sim. A necessidade, quando chega a um certo ponto de impertinncia, que mais  seno um
crime? Que direito tenho eu de incomodar os outros?


- Exageras.


- No. A caridade  muito fcil de ser exercida e chega a ser at consoladora e divertida, mas s
enquanto no se converte em maada.


- No te compreendo...


- Pois eu me farei compreender. Vou contar-te uma parbola, que o defunto padre Estvo
repetia constantemente.


- Venha a histria.


- Senta-te a nesse tronco de rvore e escuta:


Era um dia um sacerdote, que pregava a caridade.


"- A caridade, dizia ele, deve ser exercida sempre e apesar de tudo".


Vai um caboclo, que o ouvira atentamente, perguntou-lhe depois do sermo:


"-  sr padre,  caridade enterrar os mortos?


"- Decerto, respondeu o pregador;  uma obra de misericrdia".
E o caboclo saiu, matou uma raposa e foi esperar o sacerdote na estrada; quando sentiu que ele
se aproximava, ps a raposa no meio do caminho e escondeu-se no mato. O padre, ao topar
com ela e observando que estava morta, ajoelhou-se, e cavou no cho, enterrou-a e, depois de
dizer uma sentena religiosa, seguiu o seu caminho. O caboclo, assim que o viu pelas costas,
correu  sepultura, sacou a raposa e, ganhando por um atalho, foi mais adiante e jogou com ela
ao meio da estrada, antes que o pregador tivesse tempo de chegar; este, porm, no tardou
muito e, ao ver de novo uma raposa no caminho, fez o que fizera da primeira vez, enterrou-a,
mas sem se ajoelhar, nem repetir a sua mxima latina. O caboclo deixou-o seguir, tomou de
novo da raposa e foi dep-la mais para diante na estrada; o padre ao top-la, enterrou-a j de
mau humor e prosseguiu receoso de encontrar outras raposas mortas. Todavia, o caboclo no
estava ainda satisfeito e repetiu a brincadeira; mas, desta vez, o padre perdeu de todo a
pacincia e, tomando a raposa 'pelo rabo, lanou-a ao mato com estas palavras: "Leve o diabo
tanta raposa morta!" Ento o caboclo lhe apareceu e disse: "- J vejo que enterrar um morto 
obra de caridade, mas fazer o mesmo quatro ou cinco vezes  nada menos do que uma
formidvel estopada!" Ao que o sacerdote respondeu que, desde que houvesse abuso da parte
do protegido, era natural que o protetor se enfastiasse...


- Queres dizer com isso, observou Teobaldo, que j estamos fartos de te aturar..


- Decerto, porque tudo cansa neste mundo.


- s injusto e, se meu pai e minha me te ouvissem, ficariam bravos comigo.


- Ah! eles no me ouviro, podes ficar tranqilo. S a ti falo porque ns nos entendemos e bem
sabes que no sou ingrato.


- Meus pais te compreendem to bem ou melhor do que eu.


- Mas no me perdoam, como tu perdoas, o fato de ser eu to feio, to antiptico e to
desengraado...


- Ora! a vens tu com a cantiga do costume. Deixa-te disso e vamos dar um passeio  rocinha do
Joo da Cinta.


- Outra vez? Que diabo vamos l fazer agora?


- Convid-lo e mais a famlia para virem ao casamento da tia Geminiana.


-  sempre no dia 15 o casamento?


- Infalivelmente, e o alfaiate deve trazer-nos amanh os nossos fatos novos. Mas, anda, vamos!


Coruja ergueu-se do lugar onde estava assentado e acompanhou o amigo, que j se havia posto
a caminho.
Trs quartos de hora depois chegavam a um grande cercado de acapu, a cuja frente corria um
riacho quase escondido entre a vegetao.


Teobaldo parou, disse ao amigo que esperasse um pouco por ele e, trancando pelos barrancos
do riacho, foi ter  cerca e soltou um prolongado assobio.


A este sinal, com a presteza de quem est de alcatia, surgiu logo uma rapariguita de uns treze
anos, forte, corada e bonitinha.


- Ah! disse ela, vindo encostar-se s estacas.


- No esperavas por mim?... perguntou o rapaz. A pequena respondeu, entregando-lhe um
ramilhete que trazia  sorrelfa. E perguntou depois como passava de sade o Sr. Teobaldo.


- Com saudades tuas... disse o moo, tomando-lhe uma das mos.


- Mentiroso..


- No acreditas?


Ela encolheu os ombros, a sorrir, de olhos baixos.


- Dize a teu pai que no deixe de ir com vocs ao casamento de tia Gemi. Vim convid-los.


- Entre. Fale com mame. Ela est a.


- No;  bastante que lhe ds o recado.


E mudando de tom:


- No faltes, hein, Joaninha?...


- Se me levarem, eu vou.


- V, que lhe tenho uma coisa a dizer...


Teobaldo havia conseguido passar o brao por entre duas estacas da cerca e segurava a cintura
da rapariga; deu-lhe um beijo; ela o retribuiu com outro de igual sonoridade, fazendo-se muito
vermelha e fugindo logo em seguida.
Este namoro, inocente de parte a parte, era o primeiro de Teobaldo. Nascera naquelas frias um
dia em que ele, por acaso, encontrou a pequena a lavar no riacho em frente da casa as
roupinhas do irmo mais novo. Desde ento ia v-la todas as tardes antes do jantar; falavam-se
s vezes  beira do crrego, outras vezes com a cerca de permeio. De certa poca em diante
ela o esperava com um ramilhete; conversavam durante um quarto de hora e despediam-se com
um beijo.


O Coruja foi logo o depositrio do segredo; Teobaldo contou-lhe a sua aventura e exigiu que ele
o acompanhasse todos os dias  rocinha do Joo da Cinta, quedando-se a certa distncia
durante o tempo da entrevista.


Andr consentiu, sem mostrar o mais ligeiro espanto pelo que lhe revoltara o amigo.


Ainda inocente e deveras casto, no conhecia os meandros do amor e julgava dos outros
coraes pelo seu, que resumia toda a gama do afeto e da ternura em uma nota nica. No
calculava a que podia chegar aquele inocente namoro originado entre o filho do Sr. Baro do
Palmar e uma sertaneja, que nem ler sabia.


No dia seguinte o Coruja passeava sozinho por uma alameda sua favorita, quando o Caetano
lhe foi dizer que o Sr. Teobaldo o mandava chamar e ficava  espera dele no quarto.


Andr correu ao encontro do amigo.


- Chegaram as nossas roupas! exclamou este ao v-lo.


E sua fisionomia rejubilava com essas palavras.


- Ah! fez o outro, quase com indiferena.


- Experimentemos.


- H tempo.


O alfaiate observou que no podia demorar-se muito.


- Deve estar direito... respondeu Andr. Pode deixar.


-  bom sempre ver... insistiu o alfaiate.


-  indispensvel! acrescentou Teobaldo.
Andr no teve remdio seno experimentar a roupa. Era um fato preto, fato de luto, que mal
deixava perceber o colarinho da camisa.


E ele, pequeno, grosso, cabeudo, e queixo saliente, os olhos fundos, com as suas bossas
superciliais principiando a desenvolver-se pelo hbito da meditao; ele, enfardelado naquela
roupa muito sria, toda abotoada, s precisava de uns culos para ser uma infantil caricatura do
velho Thiers.


Contudo, e apesar dos conselhos que lhe dava o amigo para mandar diminuir trs dedos no
comprimento do palet e tirar um pouco de pano das costas, achou que estava magnfica.


- Ao menos, disse Teobaldo, que acabava de se vestir, manda encurtar essas calas, rapaz! e
soltar a bainha dessas mangas!


- Ento boas... teimou o Coruja, esforando-se por fazer chegar as mangas at s mos.


- Parece que te meteste nas calas de teu av.


E voltando-se para o alfaiate:


- Tambm no sei como o senhor tem nimo de apresentar unia obra desta ordem... Est uma
porcaria!


- Perdo! respondeu o alfaiate, dispondo-se logo a modificar a roupa de Andr. Vossemec
poderia dizer isso se a sua roupa no sasse boa, e essa est que  uma luva, mas, quanto 
deste moo, nem s  a primeira vez que trabalho para ele, como no podia acreditar que
houvesse algum com as pernas to curtas e os braos to compridos. Parece um macaco!


- Bem, bem, veja l o que  preciso fazer na roupa, e deixe-se de comparaes! observou
Teobaldo, defronte do espelho, a endireitar-se, muito satisfeito com a sua pessoa.


Para esse dia estava reservado ao Andr uma surpresa muito agradvel: D. Geminiana, tendo
com o casamento de separar-se. do sobrinho, queria deixar a este uma lembrana qualquer e
mandou buscar da corte um bom relgio de ouro e a respectiva corrente. A encomenda chegou
essa noite, Teobaldo recebeu o seu presente da tia e, ato contnuo, tomou do antigo relgio e da
cadeia que at aqui usara, e deu tudo ao Coruja.


Seja dito que um dos sonhos dourados de Andr era possuir um relgio; desejava-o, no como
objeto de luxo, mas como objeto de utilidade imediata.


- Poder contar o tempo pelas horas, pelos minutos e pelos segundos!...


Isto para aquele esprito metdico e regrado era nada menos do que uma felicidade.
IX


Durante o tempo que precedeu ao casamento, a fazenda do Sr. Baro do Palmar descaiu um
tanto da sua patriarcal serenidade e tomou um quente aspecto de festas, porque com muita
antecedncia comearam a chegar os convidados.


Emlio quis reunir os seus vizinhos de uma lgua em derredor e no se poupou a esforos para
que nada lhes viesse a faltar. Havia de ser uma festa verdadeiramente gamaquiana.


Ao lado das delicadas distraes das salas, o jogo, a  dana, a msica e a palestra, queria ele
a grande fartura da mesa e da copa; queria o grosso prazer pantagrulico: - Carne para mil! -
Vinho para outros tantos!


 faca as grandes reses que pastavam sossegadamente no campo;  faca os trepegos, os
chibarros, os carneiros e os perus! Que no ficassem por ali, naquelas cinco lguas mais
prximas, estmagos nem coraes com laivos de tristeza!


O casamento devia efetuar-se na prpria capela da fazenda, e meio ms antes da festa j
ningum descansava em casa de Emlio. Vieram cozinheiros de longe; cada convidado trazia
dois e trs serventes e, apesar disso, havia trabalho para todos.


O Coruja ia pela primeira vez em sua vida assistir a um baile, e essa idia, longe de o alegrar,
trazia-lhe uni fundo ressaibo &3 amargura, como se o desgraado estivesse  espera de uma
terrvel provao.


O fato de perturbarem a calma existncia da fazenda, s por si j no lhe era de forma alguma
agradvel; quanto mais a idia de ter de acotovelar-se com pessoas inteiramente estranhas, a
quem sem dvida no iria ele produzir bom efeito com a sua triste figura desengraada.


Oh! se fosse possvel ao Coruja presenciar toda aquela festa, sem alis ser descoberto por
ningum!... se ele pudesse, por um meio maravilhoso, tornar-se em puro esprito e estar ali a
ver, a observar, a ouvir o que dissessem todos, sem que ningum desse pela presena dele -
oh! ento conseguiria desfrutar, e muito!


Chegou entretanto a vspera do grande dia, e de todos os pontos comeavam a surgir, desde
pela manh, convidados a p, a cavalo e de carro.


Um enorme telheiro, que se havia engendrado de improviso nos fundos da casa, ficou cheio de
cavalgaduras, troles, carroes e seges das que se usavam no tempo.


A fazenda apresentava um aspecto magnfico. Emlio, como homem de gosto que era, procurou
afesto-la quanto possvel. Por toda a parte viam-se flores de murta engranzados com as
parasitas mais caprichosas; jogos dgua formando esplendidos matizes  refrao das luzes
multicores das lanternas chinesas. Defronte da casa o fogo de artifcio, que seria queimado pelo
correr da noite.
s seis horas da tarde uma salva de vinte tiros de pea anunciou que estava terminada a
cerimonia religiosa do casamento e que principiava o banquete. Os noivos foram tomar a
cabeceira da mesa acompanhados por mais de quinhentas pessoas.


Como nenhum dos aposentos da casa podia comportar tanta gente, o baro fez levantar no
vasto terreiro da fazenda uma enorme tenda de lona, sustentada por valentes carnaubeiras,
engrinaldadas de verdura.


Nessa festa foi que o Coruja teve ocasio de apreciar mais largamente as brilhantes qualidades
do amigo. Viu-o e admirou-o ao lado das damas, cortes e cavalheiro como um homem; viu-o
igualmente ao lado dos amigos do pai e notou que Teobaldo nem uma s vez caa em qualquer
infantilidade, e mais, que todos, todos, at os velhos, prestavam-lhe a maior ateno, sem
dvida fascinados pelo talento e pelas graas do rapaz; viu-o na biblioteca, tomando parte nos
jogos carteados, que Andr nem sequer conhecia de nome, e reparou que ele puxava por
dinheiro e ganhava ou perdia com uma distino sedutoramente fidalga; viu-o nas salas da
dana, conduzindo uma senhora ao passo da mazurca, teso, correto, elegante mais do que
nunca, e como possudo de orgulho pelo gentil tesouro que levava nos braos; viu-o  mesa
erguer-se de taa em punho e fazer um brinde  noiva, levantando aplausos de toda a gente, e o
Coruja, de cujas mos sara alis essa festejada pea literria, chegou a desconhecer a sua
obra, tal era o realce que lhe emprestavam os dotes oratrios do amigo; viu-o depois ao ar livre,
debaixo das rvores, a beber ponches e a mexer com a filha do Joo da Cinta, a qual olhava
para ele, escrava e submissa, como defronte de um Deus.


Mas tudo isso no o fez ficar to fortemente impressionado, como quando o contemplou ao lado
de Santa, ao lado daquela adorvel me que parecia resplandecer de orgulho e satisfao a
rever-se no filho idolatrado.


Foi com a alma banhada pelos eflvios da felicidade de Teobaldo que o pobre Coruja ouviu
palpitar entre essas duas criaturas as seguintes palavras, mais ternas e harmoniosas que um
dilogo de beijos:


- Amas-me muito, meu filho?


- Eu te adoro, minha Santa.


- E nunca te esquecers de mim?


- Juro-te que nunca.


- Nem mesmo depois de eu ter morrido?


- Nem mesmo depois de teres ido para o cu.


- E sabes tu, meu filho, o muito que te quero?
- Queres-me tanto quanto eu a ti.


- E sabes quanto sofreria tua me se por instantes te esquecesses dela?


- No, porque no sei como possa a gente se esquecer de ti.


- E, quando fores completar os teus estudos na corte, juras que..


No pode ir adiante. A idia da separao que j se avizinhava a passos largos, tolheu-lhe a fala
com uma exploso de soluos.


- Ento, Santa, ento, que  isso? murmurou Teobaldo, erguendo-se e chamando para sobre o
seu peito a cabea da baronesa - No chores! no te mortifiques!...


Emlio acudiu logo, afastou o filho com um gesto e, tomando o lugar deste, segredou ao ouvido
da esposa:


- Vamos, minha amiga, nada de loucuras!...


- No posso conformar-me com a idia de que Teobaldo torna a separar-se de mim...


- Bem sabes que  indispensvel...


- Perdoa-me. Ningum melhor do que eu aprecia os teus atos e as tuas intenes. Sei que ele
precisa fazer um futuro condigno do seu talento; sei que no podemos acompanh-lo de perto,
no podemos morar na corte, porque as nossas condies de fortuna j no...


- Santa! olha que te podem ouvir!...


- No me conformo com esta separao!  talvez um pressentimento infundado;  talvez
loucura, como dizes, mas no est em minhas mos; sou me, e ele  to digno de ser amado.


- Mas, valha-me Deus! no  uma separao eterna...


- No sei!  que uma terrvel idia me preocupa. Afigura-se-me que nunca mais o tornarei a
ver!... Oh! nem quero pensar nisto!


E os soluos transbordaram-lhe de novo, ainda com mais mpeto que da primeira vez.
O baro, sem perder uma linha do seu donaire, passou o brao na cintura da esposa e,
deixando que ela se lhe apoiasse de todo no ombro, arrastou-a vagarosamente at  sua
alcova.


***


Coruja, ignorado a um canto da sala, viu e ouviu tudo isso, e ao ver aquelas lgrimas de me e
ao ouvir aquelas palavras de tanto amor e aqueles beijos mais doces do que as bnos do cu,
que estranhas amarguras sua alma no carpiu em silencio!...


Amargura, sim, que, por menos egosta, por menos homem que fosse ele, do fundo do seu
corao havia de sair um grito de revolta contra aquela injustia da sorte, que para uns dava
tudo e para outros nada!


Aquele espetculo de tamanha felicidade havia fatalmente de amargur-lo. Ainda se Teobaldo,
possuindo muitos dotes fosse ao menos feito como ele, o Coruja; ainda se fosse miservel ou
estpido, - v! Mas no! Teobaldo era lindo, era rico, era talentoso e, alm de tudo - amado!
amado por tantas criaturas e, principalmente, por aquela adorvel me, cujos beijos e cujas
lgrimas eram o bastante para lhe adoar todos os espinhos da vida.


E Andr, assim considerando, via-se perfeitamente, tinha-se defronte dos olhos, como se
estivesse em frente a um espelho. L estava ele - com a sua disforme cabea engolida pelos
ombros, com o seu torvo olhar de fera mal domesticada, com os sobrolhos carregados, a boca
fechada a qualquer alegria, as mos speras e curtas, os ps grandes, o todo reles, miservel,
nulo!


O desgraado, porm, em vez de dar ouvidos a estes raciocnios, voltou-se todo para uma voz
ntima, uma voz que tambm lhe vinha do corao, mas toda brandura e humildade.


E essa voz lhe dizia:


- Pois bem, miservel! ingrato! tu, que s rfo; tu que no tens onde cair morto; tu, que s feio,
que s o Coruja; tu, que no tens nenhum dote brilhante, que no s distinto, nem espirituoso,
nem possuis mrito de espcie alguma; tu, mal agradecido! - s amado por Teobaldo, que
dispe de tudo isso  larga e que te faz penetrar sua sombra no santurio de coraes onde
nunca penetrarias sem ele.


E o Coruja, saindo da sala para respirar l fora mais  vontade, ps-se a caminhar, a caminhar 
toa entre as sombras das rvores, sentindo-se arrebatado por um inefvel desejo de ser bom,
um desejo de ser eternamente grato a quem, possuindo todas as riquezas, o escolhia para seu
ntimo, para seu irmo - a ele, que nada possua sobre a terra.


Ser "bom"!


Mas seria isso humildade ou seria ambio e orgulho?
Quem poder afirmar que aquele enjeitado da natureza no se queria vingar da prpria me
fazendo de si um monstro de bondade? Sim. Vingar-se, fugindo da esfera mesquinha dos
homens, fugindo s paixes, s pequenas misrias mundanas e procurando refugiar-se no
prprio corao, ainda receoso de que o cu, cmplice da terra, lhe negasse tambm a graa de
um abrigo.


Ou quem sabe ento se o ambicioso, vendo-se completamente deserdado de todos os dotes
simpticos a que tem direito a sua espcie, no queria supri-los por uma virtude nica e
extraordinria - a bondade?


A bondade, esse pouco!


Visionrio! No se lembrava de que a bondade,  fora de ser esquecida e desprezada,
converteu-se em uma hiptese ou s aparece no mercado social em pequenas partculas
distribudas por milhares de criaturas; como se dessa herica virtude houvesse apenas uma
certa e determinada poro desde o comeo do mundo e que, de ento para c,  medida que
se multiplicaram as raas. ela se fora dividindo e subdividindo at reduzir-se a p.


SEGUNDA PARTE


I


Dois anos depois do casamento de D. Geminiana, Teobaldo e Andr chegaram ao Porto da
Estrela acompanha' dos por trs pajens e mais por um moleque, o Sabino, que vinha para ficar
ao servio daquele durante o tempo dos estudos.


Desmontaram cobertos de p e derreados por vinte dias de viagem a cavalo. Foi recebe-los 
boca do caminho o Sampaio, um negociante de meia idade, a quem Emlio recomendara os
rapazes.


- Ento o baro no quis dar um pulo at a corte? perguntou a Teobaldo o negociante, depois
de fazer descarregar o bagageiro e providenciar para que o moleque se no extraviasse.


- No lhe foi possvel, respondeu o interrogado. No nos pode acompanhar, a despeito do
empenho que fazia nisso. Minha me est doente e ele no quis deix-la sozinha.


- Sozinha, no; ficaria com a irm.


- J no mora conosco. Seguiu com o marido para Tijup.


- E o que sente a senhora sua me  coisa de cuidado?


- Diz o velho que sim; um pouco de cuidado.
- Qual molstia?


- No sei. Uma complicao. Nervoso principalmente.


- Coitada! E j est assim h muito tempo?


- H mais de ano. Foi isso que retardou a minha vinda para a corte.


- E este moo  o tal que seu pai tambm me recomenda?


- , confirmou Teobaldo, apresentando o amigo. Bem! disse o negociante - A est a diligencia.
Podemos ir. As bagagens j seguiram adiante.


Os trs encarapitaram-se no carro e tomaram a direo da cidade.


Teobaldo estalava de impacincia por cair nesse burburinho da corte, que de longe o atraa em
silncio, mas confessou-se prostrado pela viagem. Precisava desfazer-se de toda aquela roupa,
meter-se num banho e estender--se ao comprido numa boa cama.


- Tenho p at dentro dos miolos! exclamou ele, a sacudir o seu poncho de brim enxovalhado.
Hei de ver-me limpo e ainda me parecer um sonho!


- E ter um bocado de pacincia. Daqui a nada estaremos em casa.


- Onde mora?


- Na rua de S. Bento.


-  longe?


- Nem por isso. Este seu companheiro  que no gosta muito de falar... observou o Sampaio,
querendo puxar o Coruja  conversa. - Tambm vem para os estudos?


- No sei, balbuciou Andr secamente.


- Talvez se empregue, acrescentou Teobaldo.


- No comrcio?
- Ou em outra qualquer coisa.


E Teobaldo, abrindo a boca em um bocejo:


- No sei que mais tenho, se vontade de dormir, de comer ou tomar banho!


- Com poucas far tudo isso. Estamos quase em casa; e descanse que nada lhe faltar. H de
ver!


Estas atenes do negociante pelo rapaz no eram puro esprito de hospitalidade e provinha
sem dvida dos interesses que o baro dava anualmente  casa comercial dele. Sampaio era o
encarregado de lhe sortir a fazenda de tudo que precisava ir da corte, e nessas faturas o
fornecedor de antemo pagava-se de todas aquelas galanterias.


s nove horas da noite achavam-se os nossos rapazes, depois do indispensvel banho,
assentados em volta do seu hospedeiro e defronte de uma excelente ceia, que fumegava sobre
a mesa.


Sampaio, enquanto eles comiam, procuravam instru-los pelo melhor os costumes da vida
fluminense, da qual se julgava grande conhecedor, sem nunca alis ter arredado p do burgus
e acanhado crculo em que vivia.


- Isto aqui, rezava ele -  um demnio de uma terrinha, que tanto pode ser muito boa, como
pode ser muito m. Depende tudo de cada um e de cada qual. No h terra melhor e nem h
terra pior! Para aqueles que desejam se fazer gente, trabalhar, dar-se ao respeito no h terra
melhor; mas para os que s pensam na pndega e tm, como o senhor, ordem franca em uma
casa comercia! como esta, - no h terra mais perigosa! Estou certo, porm, de que o Sr.
Teobaldo h de dar boa conta de si!


- Tambm eu, disse o filho do baro, recuperando o seu bom humor.


- Sim, continuou o negociante, mas com esses ares, com essa carinha de moo bonito, 
preciso ter muito cuidado com as francesas!


- Com as francesas?


- Francesas  um modo de dizer. Refiro-me a todos esses diabos de que vai se enchendo o Rio
de Janeiro e que no fazem outra coisa seno esvaziar as algibeiras dos tolos!


- Mas de que diabo fala o Sr. Sampaio?


- Ora essa! das mulheres! Pois ento o senhor no me compreende?
- Ah! Com que isto por aqui  fechar os olhos e...


- Um desaforo! Dantes ainda as coisas no iam to ruins; mas ultimamente  uma desgraa!
Todos os dias esto chegando mulheres de fora! Eu nem sei como o governo no toma uma
medida sria a este respeito!


Teobaldo sorriu desdenhosamente, e o Sampaio acrescentou:


- Todo o cuidado  pouco para no cair nas garras de algum dos tais demnios! Encontrando o
perigo -  fugir, fugir, para no chorar ao depois lgrimas de sangue! O senhor veio ao Rio foi
para estudar, no ? Pois enterre a cara dentro dos livros e feche os olhos ao mais!


- Pode ficar tranqilo, respondeu Teobaldo, levando Q seu copo  boca,


- No digo que no se divirta... prosseguiu o Sampaio; consinto que v ao teatro de vez em
quando; se se der com alguma famlia, pode freqent-la; mas tudo isso, j se v, com muita
prudncia e com muito juzo. Evite as ms companhias, fuja dos vadios e dos viciosos; no
freqente a rua do Ouvidor; no entre nos cafs! E, abaixando a voz e chegando-se mais para o
moo, disse, com o mistrio de quem faz uma revelao terrvel: - E, principalmente, meu
amigo, no se meta a escrevinhador.


Teobaldo ergueu a cabea, surpreso:


- Como?


- Sim, confirmou o outro. - No se meta a escrevinhador, que isso tem posto muita gente a
perder! Poderia citar-lhe mais de cem nomes de estudantes, de quem fui correspondente, que
perderam anos, que cortaram a carreira por causa da maldita patifiria das letras! Eu os vi, a
todos, por a, enchendo as ruas de pernas, mal alimentados, e mal vestidos, com a mesada
suspensa pela famlia, a fazerem garbo das suas necessidades e s vezes at das suas
bebedeiras!


Teobaldo ouvia agora o negociante com singular ateno.


- Fuja! continuava aquele: fuja de semelhante porcaria! se no quiser ver o seu nome todos os
dias na boca do mundo!


- O nome?


- Sim, sim, o nome, que seu pai lhe ps  pia do batismo! Se no quiser v-lo de boca em boca
no se meta a escrevinhador! E ainda se fosse apenas isso... v!  feio, mas enfim, sempre h
homens srios, cujo nome o pblico no ignora; o pior  que s vezes rebenta por a cada
descompostura, que  mesmo uma vergonha! Quem se deixa cair em tal desgraa no est livre
das chufas da imprensa e dos comentrios do mundo inteiro!
E o Sampaio, para melhor firmar os seus argumentos, principiou a citar nomes.


- Mas esses nomes - acudiu Teobaldo recorrendo s leituras que fizera na provncia - esses
nomes so todos muito distintos. O senhor est citando os nossos poetas mais conhecidos!


- Ah! ningum nega que no sejam conhecidos, nem que no sejam poetas, mas posso
afianar-lhe que no so homens srios.


- Homens srios?... Que diabo entende o senhor por homem srio?


- Ora essa! Que entendo por homem srio? -  boa! Por homem srio entendo todo aquele que
no d escndalos, que no  tratante e que se ocupa em alguma coisa sria! Enfim, todo
aquele que trabalha! - Ento quem escreve no trabalha?


- No digo isso, mas...


- Acabe.


- Mas no  um trabalho srio!


Teobaldo, em vez de prosseguir no dilogo, olhou para o Sampaio com um gesto que tanto
podia ser de lstima como de repugnncia, e, deixando escapar o seu predileto sorriso de ironia,
ergueu-se, bateu-lhe levemente no ombro e disse:


- O senhor  um grande homem!.. . Mas eu preciso descansar. Boa noite!


Semanas depois, mudaram-se os dois rapazes para Mata-cavalos, levando em sua companhia
o moleque.


Teobaldo, no meio da casa, envolvido em um robe-de-chambre de seda azul, um cigarro entre
os dedos, dirigia a colocao dos mveis.


- Esse espelho ali,  Andr! E a secretria deste outro lado. Assim! Agora, vejamos onde deve
ficar o piano... Ah! c est o lugar dele, aqui, entre estas duas janelas. E anda com isso, 
Sabino! que ao contrrio no se acaba to cedo a arrumao!


O Sampaio espantara-se quando ele lhe dera a lista dos mveis que precisava.


- Pois o senhor tambm quer cortinas? exclamou arregalando os olhos.
- Quero tudo isto que a est notado, respondeu o estudante; - o resto me encarrego de comprar
pessoalmente.


- O resto? H ento ainda outras coisas alm disto?...


- Sem dvida.  preciso alegrar a casa com alguns objetos de arte, Chegam-me quatro ou cinco
estatuetas...


- Estatuetas?...


- ... uma pndula de bom gosto, dois jarros para flores e meia dzia de quadros.


- Mas o senhor onde j viu casa de estudante com esse luxo?


- No preciso ver para usar: se fao deste modo  porque assim o entendo. Compreende?


- Bem, bem! isso  l com o senhor... Tem ordem franca...


E jurou consigo que Teobaldo no havia de ir muito longe com aquelas tafularias.


A casa, depois de cada objeto no seu lugar, no parecia com efeito destinada  habitao de
dois estudantes ainda to novos; tal era a boa ordem o asseio, o gosto bem educado e familiar
que a tudo presidia. Tanto assim que a proprietria e locadora do prdio, que a principio no se
mostrara l muito satisfeita com os novos hspedes, rejubilava-se agora ao ponto de lhes propor
que almoassem e jantassem com ela, mediante uma estipulada mensalidade.


Instalado, cuidou Teobaldo de arranjar os necessrios explicadores para os preparatrios que
lhe faltavam e mais ao Coruja, e disps-se a estudar com afinco.


Mas o seu esprito inconstante e vadio no se queria fixar sobre um ponto certo, e os dias
passavam-se em repetidas polemicas a respeito da carreira que ele devia abraar.


- Mas, afinal,  preciso que te decidas por alguma... . dizia-lhe o Coruja. - Se no sares dessa
hesitao, acabars fatalmente por no estudares nada!


Teobaldo principiava sem dvida a demorar muito a escolha de uma profisso. Ao sair da sua
provncia vinha aparentemente resolvido a repetir na corte os preparatrios e seguir logo para a
Academia de S. Paulo. O direito, porm, se lhe apresentava  trfega fantasia com o insocivel
aspecto de um velho carregado de alfarrbios, tressandando a rap, fanhoso, pedantesco, sem
bigode e de culos na testa.
- Abomino-o! exclamou ele a discutir com o amigo. - Aquilo nem  cincia: e uma coisa toda
convencional... uma coisa arranjada segundo o capricho de quem a inventou! Nada possui de
certo e determinado! No direito tudo admite sofismas; tudo se pode inverter; tudo est sujeito a
mil e um alvars e a duas mil e tantas reformas! Alm disso, consta-me que ningum pode se
gabar de saber direito antes de lidar com ele pelo menos quarenta anos! Oh! bela carreira! bela
carreira, que exige quase meio sculo de estudo para se ficar sabendo dalguma coisa dos seus
mistrios!... E, demais, que diabo de vantagem oferece o tal direito?.... A magistratura? Deus me
defenda! A advocacia? Mas eu detesto os advogados!


- Por que? atalhou o Coruja.


- Ora! Qual  o papel de um advogado, qual  a sua misso? Defender os rus; muito bem!
Mas, das duas uma - ou o ru no tem crime e nesse caso est defendido por si; ou o ru  um
criminoso, e no menos ser aquele que, por meio da eloqncia e da astcia de seu talento,
conseguir provar que ele  um inocente!


- Isso  asneira!


- Pois qual  a misso do advogado, seno empregar meios e modos para alterar a favor do seu
constituinte o juzo feito pelos jurados? Qual  a misso do advogado, seno convencer a quem
supe um homem estar to inocente como no dia em que vestiu o seu primeiro par de calas?...


- Enganas-te, acudiu o Coruja; o advogado serve para muitas outras coisas; serve para evitar
que um inocente sofra a pena que no merece; serve para...


- Ora qual! interrompeu Teobaldo. O advogado quase nunca se acha convencido da inocncia
do seu constituinte. Defende-o, porque a sua vida  defender os rus, e para isso lana mo de
todos os recursos da oratria e serve-se de todos os laos e armadilhas da retrica!


- Mas...


- Ora! se o advogado, empregando esses meios, consegue dos jurados a absolvio do ru, 
um homem pernicioso, porque faz com que aqueles se pronunciem, no pelo seu juzo calmo e
refletido, mas sim dominados pelos efeitos sedutores de um bom discurso; e, se o advogado
no consegue vencer a opinio dos jurados, ser nesse caso um fiador intil, visto que no
adianta absolutamente nada do que estava feito!


- Pois, se o direito te inspira tal repugnncia, escolhe ento a medicina...


- A medicina! Mas, onde iria eu buscar pacincia e disposio para retalhar cadveres e
aprender os remdios que se aplicam no tratamento de tais e tais molstias?... Acreditas l que
semelhante coisa possa ocupar a vida de um homem cheio de aspiraes como eu?... Podes l
acreditar que eu chegasse a tomar interesse por um tumor ou por uma erisipela....


-  o diabo!
- De todas as carreiras, metendo a engenharia de que no gosto, por embirrncia s
matemticas, s a das armas no me desagrada totalmente.


- Pois a tens, decide-te pelo Exrcito ou pela Marinha.


- Mas, valha-me Deus! o curso militar baseia-se todo nos malditos algarismos e eu nem para
fazer uma conta de somar tenho jeito ...


- Ento...


- Alm de que eu jamais daria um bom soldado ou um bom marinheiro. S a idia de ficar
eternamente submisso ao governo do meu pas; s a idia de que tinha de deixar de ser um
homem, para ser um instrumento do militarismo, um defensor oficial da ptria, com obrigao de
ser um bravo a tanto por ms e de ter uma honra telhada pelo padro de um regulamento; s
isso ou tudo isso, meu Andr, faz-me desanimar.


- Ento no h remdio, decide-te pela engenharia...


- Impossvel! Seria um engenheiro que havia de contar pelos dedos, quando precisasse somar
trs adies!


- Ento, parte quanto entes para a Alemanha e vai estudar cincias naturais...


- Que de nada me serviriam aqui no Brasil e para as quais tenho tanta averso quanta tenho s
tais cincias exatas e moreis!


- Dedica-te  igreja...


- Se eu tivesse jeito, quem sabe?


- Ou ento s belas-artes. Faz-te msico, pintor ou escultor.


- E o talento para isso, onde ir busc-lo? Queres que eu pea ao velho que me remeta l de
Mines, todos os meses, um pouco de gnio?...


- Ora! Tu tens talento para tudo.


- O que eqivale a no ter para coisa alguma. Entendo um pouco de desenho, um pouco de
msica, de canto, de poesia, de arquitetura, mas sinto-me to incapaz de apaixonar-me por
qualquer dessas artes, como por qualquer daquelas cincias. Tudo me atrai; nada, porm, me
prende!
E, depois de um silencio, durante o qual no encontrou o Coruja uma palavra para dar ao amigo:


- Queres saber qual era a carreira que eu de bom grado abraaria, se no fossem as
convenincias...


- Qual?


- O teatro! Fazia-me ator.


- Estais louco?


- Ah! no! ainda no estou, que, se o estivesse, j teria-me resolvido a entrar em cena.


- Havias de arrepender-te...


- Quem sabe l?...


II


Levavam os dois amigos uma existncia bem curiosa na sua casinha de Mata-cavalos.


Completavam-se perfeitamente. Teobaldo era quem determinava tudo aquilo que dependesse
do gosto, era sempre quem escolhia, o outro limitava-se a conservar e desenvolver.


Ao Andr faltava a fantasia, a originalidade; no tinha inspiraes, nem sabia comunicar s
pessoas e s coisas que o cercavam o mais ligeiro reflexo individual; mas o que lhe faltava por
esse lado sobrava-lhe em mtodo, em pacincia e bom senso. Era ali o esprito da ordem, o
pacfico regulador do asseio e da decncia; queria as coisas no seu lugar, no podia
compreender o que lia ou escrevia, sem ver em torno de si a mais harmoniosa disposio nos
mveis, nos livros e em todos os objetos de que se compunha a casa.


Teobaldo entrava e saa de casa, sem horas certas, mudava de roupa, atirando a camisa
enxovalhada para cima do primeiro traste que encontrava, e da a pouco perdendo a cabea 
procura do chapu, ou da bengala, que ele prprio arrojara a um canto do quarto, por detrs de
algum mvel. O Coruja, ao contrrio, no punha os ps fora de casa, sem passar uma vista
dolhos por tudo, sem arrumar aquilo que estivesse desarrumado; e, s vezes, depois de estar na
rua, ainda voltava para certificar-se de que havia fechado a janela da sua alcova ou a gaveta da
sua secretria.


Por este modo vivia a casa sempre no mesmo p de limpeza e ordem.
Um dia Teobaldo, entrando da rua, exclamou para o companheiro, que estudava  secretria,
como era do seu costume:


- Sabes, Coruja? Decidi-me pela medicina!


- Mas tu ainda ontem disseste que ias entrar para a Escola Central!


- Mudei de inteno. O vida militar  incompatvel comigo! Uma vida sem futuro e sem liberdade!
No quero!


E, gritando pelo Sabino, estendeu as pernas, para que o moleque lhe sacasse as botas.


-  verdade! acrescentou; convidei hoje para jantar um rapaz que me foi apresentado ontem no
teatro, o Aguiar, belo moo, que chegou h dias de Londres.


- Ah!


- E os teus negcios, caminham?


- Qual! No obtive a cadeira que desejava no colgio do tal Madeiros, mas em compensao um
amigo do Sampaio arranjou-me um lugar de conferente no Jornal.


- Quanto vais ganhar?


- Trinta mil ris por ms.


- Oh!


- Antes isso do que nada...


- Quantas horas de servio?


- Das sete s onze da noite.


-  horrvel.


- Prometeram-me arranjar tambm alguns explicandos de latim, francs e portugus.
Teobaldo j no o ouvia, porque estava entretido a falar com a dona da casa, que ele acabava
de descobrir no andar de baixo.


- Temos ento hoje um convidado? perguntou ela, depois do que lhe disse o rapaz.


-  exato, um amigo. Pode acrescentar um talher  mesa; dos vinhos encarrego-me eu.


D. Ernestina, assim se chamava a senhoria, era uma rapariga de vinte e poucos anos, cheia de
corpo, muito bem disposta, mas um tanto misteriosa na sua vida ntima. Pelo jeito possua
alguma coisinha de seu e era mulher honesta.


Viva, casada ou solteira?


Viva, podia ser; casada  que no, porque em tal caso no seria ela a senhora da casa e sim o
marido. Solteira... mas h tantos gneros de mulher solteira...


Contudo ningum podia dizer mal de sua conduta. Passava todo o santo dia ocupada com os
arranjos da casa e s se mostrava  janela ou saa a passear no jardim nas tardes de muito
calor, quando o corpo reclama ar livre.


Teobaldo notara que, todas as noites, entre as sete e as dez, aparecia na sala de jantar de D.
Ernestina um sujeito de meia idade, gordo, semicalvo, discretamente risonho e pelo jeito homem
de negcios.


A persistncia deste tipo ao lado da rapariga e as maneiras carinhosas com que ele a tratava
levaram o estudante a decidir para si que o homem, "Seu Almeida", como lhe chamava ela, era
sem dvida o verdadeiro dono da casa; mas nem de leve se preocupou com isso.


s vezes D. Ernestina reunia em torno de si duas ou senhoras de amizade e palestravam antes
do ch.


Nessas ocasies, Teobaldo descia quase sempre ao andar debaixo e, com a sua presena,
animava a sala, cantando, tocando piano, fazendo prestidigitaes e recitando poesias.


Uma vez, em que ele deixou-se ficar  mesa depois do almoo, Ernestina guardou tambm a
cadeira e os dois principiaram a conversar:


- Ainda no tinha vindo  corte? perguntou ela.


- Vim, mas de passagem, quando sa de Minas para  Europa.


- Ah! viajou pela Europa?
- Estive em um colgio de Londres.


- E depois voltou para junto de sua famlia?...


- At o dia em que vim para aqui.


- Seu pai  fazendeiro?


- Sim, senhora.


- E pelos modos, rico...


- Remediado.


- Como se chama?


- Baro do Palmar.


- Ah!


- Ou ento Emlio Henrique de Albuquerque.


- Ainda vive a senhora sua me?


- Ainda. Quer ver o retrato dela? Trago-o nesta medalha.


D. Ernestina levantou-se e ficou por alguns segundos debruada sobre Teobaldo a ver a
delicada miniatura em marfim que ele trazia na corrente do relgio.


- Ainda est moa... muito bem conservada....


- Hoje tem os cabelos quase todos brancos. Meu pai, que  muito mais velho, no est to
acabado.


- Que perfume  esse que o senhor usa?


-  dos que ainda trouxe de casa. O velho recebe-os diretamente da Inglaterra.
-  muito agradvel.


- Pois, se quiser, posso ceder-lhe um frasquinho; tenho ainda muitos l em cima.


D. Ernestina aceitou; ele correu a buscar a perfumaria e, depois de conversarem a respeito do
Coruja, que fora trazido  baila e o qual declarou ela com franqueza que achava detestvel,
Teobaldo entendeu chegada a sua vez de interrogar, e perguntou-lhe sem mais prembulos:


- A senhora  casada?


Ela respondeu que "sim", mas vacilando.


- Com o Almeida...


Outro sim dbio.


- H muito tempo?


- H algum j...


- Era viva antes disso?


- Sim, senhor.


- E no tem filhos?


- No, felizmente.


- Felizmente, por que?


- Ora! os filhos fazem a gente velha...


E assim palavrearam durante uma boa hora, sem que o rapaz conseguisse precisar o seu juzo
sobre aquela mulher, da qual nem mesmo a idade podia determinar.


Um homem mais velho que Teobaldo notaria entretanto que Ernestina era bem servida de
formas, que tinha bons dentes, cabelos magnficos e um par de olhos bem guarnecidos e
banhados de uma certa umidade voluptuosa.
Mas o filho do baro estava na idade em que os homens ainda no sabem apreciar as mulheres
e aceitam-nas indeterminadamente, como simples recreio dos seus sentidos. Orava ele ento
pelos dezoito anos e, mais formoso do que nunca, desenvolviam-se-lhe as feies, sem
detrimento da primitiva frescura. Tinha ainda alguma coisa da graciosa candura da criana e j,
nos traos enrgicos de sua fisionomia e nos movimentos donairosos de seu corpo,
pressentiam-se as manifestaes de uma forte e precoce virilidade. Tez aveludada e pura,
sorriso crespo e frio, olhar indiferente e terno a um tempo, dir-se-ia que ele, naquele todo de
jovem prncipe aborrecido, realizava com a sua graciosa e plida figura o tipo ideal do
romantismo da poca.
